segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cebola gosta de se ralar

Retomando a série Vegetais Alienígenas do Espaço



Há tempos a Dona Cebola tentava subir na pia da cozinha. Seu sonho era ser ralada para virar molho. Por mais que tentasse pular, não dava, sempre descia rolando.

- Ah, se eu não fosse tão redonda! - Dona Cebola repetia, desconsolada.

Cada dia era uma tortura. Ela ficava em sua cesta, vendo seus amigos cebolas serem selecionados para virar salada, sopa, molho e até creme, mas ela nunca era pega e começava a perder sua casca. Temia ir para a geladeira, onde ficava a dimensão dos legumes esquecidos.

Dona Cebola sabia que, uma vez que entrassem na geladeira, os vegetais eram abduzidos e acabavam se transformando em vegetais-monstros assassinos horrendos! Cheios de fungos, bolotas de mofo e se desfazendo de podridão!

Aquilo, evidente, era coisa dos vegetais alienígenas. Dona Cebola não gostava deles. Ficavam tirando onda de orgânicos, em embalagens de plástico filme com isoporzinho embaixo, alguns tinham até redinha de proteção, uma frescura só!

Até que um dia, Dona Cebola viu uma forma de virar molho. O negócio parecia simples, intuitivo, tinha uma maçã nas costas e se chamava internet. Dona Cebola sabia que podia confiar nas maçãs, pois toda aquela história de Adão e Eva era só marketing viral, um meme. Ela buscou no Google uma forma de se autotransformar em molho e encontrou um blog destinado a vegetais solitários que queriam cumprir sua missão de vida: virar comida.

E de repente, ali, lendo aquele blog, ela se deu conta de que não estava só. Não porque o blog lhe dava respostas, mas porque tudo o que o blog dizia não servia para nada. O que ela precisava mesmo estava perto dela o tempo todo: ela tinha amigas cebolas. E elas sempre estiveram ali, dispostas a ajudar, mas Dona Cebola, orgulhosa e autossuficiente, nunca enxergara isso.

As cebolas trabalharam em equipe, revezando-se na vigília para que Dona Cebola estivesse na próxima leva de vegetais para a refeição. Até que um dia ela foi pega. E então, simples assim como a amizade, Dona Cebola cumpriu seu destino. Escorregou lindamente por um ralador repetidas vezes para se ralar. Feliz, feliz, feliz!

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