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segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Wattpad, uma fábrica de autofantasias

"O ser humano é mesmo uma caixinha de fazer e pensar merda". 

Wattpad. Para quem não está familiarizado, uma plataforma onde as pessoas entram para ler e publicar o que quiserem. O que quiserem? Sim. Qualquer merda que quiserem. 

As categorias mais populares são: 

Fanfics, que são histórias criadas por fãs sobre histórias já existentes (ô falta de imaginação). Li alguns há muito tempo, a maioria é escrito muito mal. 

Imagines, um tipo de história bizarra na qual a pessoa escreve sobre uma celebridade, cenas que imaginou com ela. Ah é, bizarro mesmo. Não tive coragem de ler, mas entendi pelas sinopses que rola muito fetiche com artista de kpop, jogador de futebol, enfim...

Hot, histórias eróticas, pornô leve ou pornô pesado, que as pessoas usam... acho que para se masturbar, porque têm títulos como "Possuída pelo CEO", "Grávida do chefe", "Vendida para o dono do morro". Eu li um deles, chamado de Contos Eróticos, mas achei tão sem imaginação, que larguei antes de finalizar o primeiro capítulo. A pessoa que escreveu nunca deve ter lido nada do Marquês de Sade. 

Fantasia de RPG, histórias nerds com elfos, magos, trolls, fadas, anões, enfim, essa laia toda. Chaaaato, cansativo e repetitivo. Tentei ler alguns. Juro. 

O resto. Romances, histórias de terror, zumbis, todos os outros gêneros. A maioria com roteiros iguais a todos os outros clichês muito ruins e sem graça, histórias sem pé nem cabeça, absurdamente mal escritas. Sério, escritores que não acertam as palavras nem no título. A maioria uma grande e enorme merda, que não merece atenção alguma. Mas, acredite se quiser, visitei alguns dos livros mais lidos da plataforma, na casa dos milhões de views e... sim, a maioria é lixo não reciclável. 

Quanto mais entendo as funcionalidades do ChatGPT e outras IAs de texto, percebo como a maioria dos humanos é substituível. Porque, se for para criar uma porcaria de texto, demande ao ChatGPT, ele vai criar um que, pelo menos, não tem erros de português. Originais não serão, interessantes talvez, surpreendentes, não digo, mas sem erros, isso sim, serão. 

A imagem ao lado foi gerada por IA. Mas meu texto não. 

A indústria do entretenimento se tornou tão mais do mesmo, que até me surpreendo quando encontro algum livro bom. Geralmente ao acaso. O último que li foi "Tudo é rio", de Carla Madeira. Um maravilhoso e raro acaso e levei o livro. Li com prazer, um prazer que há anos não sentia em uma literatura inesperada. 

Em um próximo post, eu posso contar como faço para selecionar os livros que considero bons, mas para finalizar esse post aqui, só vou dizer uma coisa: Wattpad é ruim, mas se você nunca experimentou, vai lá, sem julgamentos, lê de tudo um pouco e crie sua própria opinião. 

Aliás, é para isso que os livros servem. Criar experiências novas, imaginadas, abrir novas fronteiras para a mente. Se não é para isso, é autofantasia, mera fuga da realidade, entretenimento barato. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

O que penso sobre o mundo e o absurdo de achar que alguém se importa

 Esta história que vou contar ocorreu faz uns anos. Na época, eu trabalhava em uma empresa de educação à distância que tinha em seus quadros, espaço para a contratação de estagiários. Para quem caminha no ingênuo universo da ilusão, saiba que estagiário é o nome que se dá a um cargo para alguém que tope fazer os trabalhos mais chatos e repetitivos, que qualquer idiota sabe fazer, com o menor salário que a empresa pode pagar, sem nenhum ônus, vulgo CLT. 

Eles são selecionados de forma simples, pois não se espera que tenham experiência, apenas boa vontade. Uma leitura básica no currículo, confirmar sua matrícula na universidade, uma entrevista para checar se a pessoa está mesmo a fim de trabalhar e pronto, a vaga é do estagiário. 

Por este motivo, volta e meia apareciam uns estagiários incrivelmente burros, mas esperto o suficiente para enganar a mocinha igualmente burra do RH, com as respostas certas para as perguntas estúpidas que ela faz. 

E a história que conto é com um desses estagiários. Ele não era da minha equipe, felizmente, mas como era da equipe que trabalhava de frente à minha na sala, acompanhei o drama muito de perto.

O nome, não me lembro. A universidade dele, lembro apenas que era uma dessas Uniqualquercoisaondeentraqualquerum. E botei reparo em sua figura quando na primeira semana de trabalho dele, interrompeu uma reunião minha com uma colega sênior para oferecer um livro. 

Era um livro escrito por ele. Entregou com um sorriso confiante, dizendo que era da Academia Seiládaonde de Letras. Lembro-me de conter minha primeira impressão desta abordagem: 

"Que coragem" - pensei. "Interromper uma reunião de seniores e entregar um livro escrito por ele. Um garoto de 19 anos". 

Ao ler o título do livro, lutei ainda mais para conter minha impressão dentro de minha mente. Não me lembro exatamente o título, mas era algo como: 

"O que penso sobre o mundo". 

Felizmente, minha colega sênior o respondeu amavelmente e ele saiu, deixando-nos a sós para continuar a reunião. Quando terminamos, voltei para meu trabalho e ao concluir o expediente, peguei o livro. Folheei e fui ao que me interessava: que editora toparia publicar um livro de um garoto de 19 anos com um título pretensioso destes?

A resposta veio rápida: nenhuma. 

O livro não tinha editora, nem ficha catalográfica. Parecia algo feito de forma independente. Você escreve, diagrama, faz a capa, manda publicar, paga tudo e distribui. Pronto. Assim nascem os livros independentes de garotos achistas de 19 anos que pensam que o que pensam sobre o mundo interessa a alguém. 

Mas, tudo bem. Eu não ia julgar o livro só pela capa. Comecei a ler. 

Parei. 

Continuei. 

Parei. 

Olhei para o livro, interrogativamente e reforcei minha primeira impressão: 

"Ele é muito mais corajoso do que eu tinha pensado inicialmente, porque o livro é uma completa bosta". 

Não perdi meu tempo lendo mais, deixei o livro ali, pois não merecia nem esbarrar na minha estante. Na semana seguinte, alguns comentários chegaram de colegas que tinha lido o tal do livro. Ninguém quis dizer em voz alta, claro, para não ferir os sentimentos do garoto, mas aos cochichos, a impressão de bosta era unânime. 

O livro merecia o prêmio de bosta. 

Eu não tinha dado mais atenção ao fato, tenho muita consciência de utilizar bem meu tempo, mas alguns colegas insistiam em comentar e eu então peguei o livro mais uma vez. Fui checar os antecedentes do garoto. 

 Descobri que ele tinha se candidatado a uma Academia Seiládaonde de Letras, mas fora recusado. O pai era militar e tinha bancado o livro, talvez pensando em alavancar a carreira do garoto. Mas, com certeza, sem nunca ter lido o que ele escreveu. Qualquer um que lesse, concordaria que queimar todas as edições era o melhor a ser feito pela carreira do garoto. 

Pobres criaturas que crescem sem um feedback realista de seu trabalho...

Porque o pior não era o livro. Era que o garoto era tão ruim trabalhando que durou apenas dois meses. E não era só ruim no trabalho, era péssimo em se relacionar com os colegas. Cantou todas as garotas. usava o chat de trabalho para isso. Encarou tanto uma estagiária minha que ela pediu para trocar de lugar. 

Recebeu quatro chances de ficar, feedbacks precisos e realistas dados por pessoas da área de educação e pedagogia. Quatro pessoas foram destacadas para ajudá-lo. Mas ele não aprendia o que fazer. Não conseguia entender nem o básico. Não aprendia nada, de forma alguma, mesmo mudando o tutor. 

Talvez fosse o QI, talvez fosse uma doença mental, mas com certeza era a ausência de uma postura realista em relação ao mundo. Apesar de todos os feedbacks, o rapaz era invariavelmente confiante e vaidoso, de uma forma que beirava ao narcisismo psicótico. Incapaz de uma autocrítica, incapaz de aprender com seus erros, pois acreditava ingenuamente que apenas acertava. 

Acreditava que o que pensava sobre o mundo era tão formidável que merecia ocupar as páginas de um livro. 

Pobre criatura, poupada de sua própria ignorância. E por isso, condenado a ser eternamente ignorante. 

sábado, 8 de junho de 2024

Por que os homens traem mais que os cães

Havia um cão. Ele se chamava Winky. Não sei se este era mesmo o nome dele, só sei que eu o chamava de Winky e ele me atendia. Olhava para mim, sorrindo, abanando o rabo. Feliz como só toda vez que me via. Winky era um cão ruivo, porte médio, pelo liso e um pouco longo. Um típico vira-lata bonito. Tinha o focinho fino e as orelhas pontudas de pé, como uma raposa. 

Era um cão muito esperto. Sabia que na rua tinha carros e somente a atravessava com muito cuidado. Winky era o cão mais esperto que eu já vira naquela rua onde eu o cuidava. Minha família tinha um mercado naquela rua e eu trabalhava nele. Todos os dias, lhe dava ração, trocava a água. Ele vinha querendo afago, brincava, caminhava ao meu lado, faceiro e contente. 

Se fosse longe, logo voltava. Eu sabia que não podia levá-lo para casa, pois já tinha mais cães que quintal, então, certo dia, um senhor que cuidava de um sítio se interessou por Winky e o demos a ele. O sítio ficava distante, quase uma hora de combi. E Winky foi na combi, feliz e faceiro, junto com as compras do mês. 

Até que três dias depois, quem aparece na rua outra vez? Ele mesmo, Winky, o cão ruivo. Feliz e faceiro. Sabe lá como, mas voltou a pé do sítio para o lugar que considerava seu lar. Eu disse que era o cão mais esperto que eu já conheci. E não só esperto, era leal. Leal como poucos humanos neste mundo. O cão mais leal do mundo. 

Winky não ficava conosco por comida, por cama quentinha, teto, dinheiro ou brinquedos. Ele apenas via em nós seu lar, seu bando. E como todo cão, Winky precisava de um bando e era leal a ele. 

Até que um dia, eu estava no mercado, quando dois clientes apareceram dizendo que Winky tinha morrido atropelado ali perto. Não é possível, pensei. Ele era muito esperto com carros e ruas. 

Mas o ser humano, este, desleal, o atropelou mesmo assim. Passou com o carro por cima dele, por querer. Não parou para prestar socorro, por querer. Nem mesmo procurou de quem seria aquele cão, por querer. O ser humano foi desleal com o cão mais leal do mundo. 

Os dois clientes, amigos nossos, se ofereceram para enterrar o Winky e sua curta e marcante história conosco se encerrou em uma cova triste. Sim, há homens leais. Mas nenhum como um cão. Nenhum como Winky. 

O homem que trai tem medo de ser dominado por sentimentos bons. Escolhe os ruins, portanto. Escolhe flutuar na superficialidade das relações egocêntricas, pautadas apenas por seus próprios prazeres. Não merece, portanto, confiança. Mas tem gente que confia. Que acha que ele é bom porque se ilude. Ou porque sabe que ele é ruim, mas acha que só com você ele não será. Porque você é especial. 

O homem que trai não vê ninguém como especial, apenas seu próprio pênis. Não pensa, pois se pensar, o pinto cai. O homem desleal não é desleal apenas com sua amante. É assim com tudo e com todos, por isso é tão visível que ele assim o será. 

O homem desleal tem traços muito evidentes: não cumpre pequenas promessas, menos ainda as grandes; tem uma baixa autoestima enrustida, que pode disfarçar com uma capacidade de sedução bem desenvolvida; quer dominar e busca o poder, nem que seja por meios desonestos; quer vantagem em tudo o que faz, mesmo que não mereça; não se importa em prejudicar outras pessoas, desde que leve alguma vantagem; pode até fingir muito bem que se importa contigo, mas você o pega nos detalhes; não está presente quando você precisa, sempre tem um compromisso; mente para os outros e espera que você o acoberte, ou esconde a mentira de você. 

Há ainda vários outros traços, mas o homem desleal sempre está no campo da necessidade de dominação sem escrúpulos, portanto tudo o que deriva disso está nos traços. Dá pra reconhecer um sem muita dificuldade, ele cheira deslealdade. Chega todo sedutor, sorriso estampador, charmoso. Você o pega na conversa, se quiser. Pergunta a ele se já traiu alguém, assim, de cara. Ele vai sorrir, tentar mudar o assunto, mas se responder, vai coçar o nariz, dizendo alguma mentira plausível. Vai olhar fixo em seus olhos e dizer que jamais faria isso contigo. Assim agem os mentirosos. 

Já o cão, ah... serzinho simples de entender. Se o cão quer te dominar, você o adestra. Ele convive contigo e te acompanha, te segue, te protege e te ama. Não exige muito. Até se você se esquecer de dar comida, ele não te cobra, não faz chantagens e manipulações. Facilmente se torna o cão mais leal do mundo. Assim como Winky era. 

Espero que você possa ter um Winky em sua vida. 

terça-feira, 5 de março de 2024

Se minha vida fosse um filme

 Se minha vida fosse um filme, eu não sei qual seria o enredo principal. Poderia ser muita coisa. Mas geralmente sua vida se torna um filme por alguns motivos de roteiro bem óbvios: 

1. Você tem uma doença rara e supera isso ou faz uma boa coisa e morre (O Menino da Bolha de Plástico; O Homem Elefante; Por toda minha vida; A Teoria de Tudo; A culpa é das Estrelas; O óleo de Lorenzo);

2. Você tem uma carreira de sucesso, mesmo que seja escrota (Jerry Maguire; O Lobo de Wall Street; Prenda-me se for capaz; Fome de Poder; O senhor das Armas; Obrigado por fumar; À Procura da Felicidade);

3. Você tem uma doença psiquiátrica e romantizar isso dá um roteiro razoável (O lado bom da vida; Uma mente brilhante; Adam; Clube da Luta; Melhor é Impossível; Primeiro da Classe; Garota Interrompida);

4. Você passou por um desastre ou precisou ser resgatado ou resgatou alguém (A lenda de Tham Luang; Enchente; Sully - O Herói do Rio Hudson; A Sociedade da Neve; No ar rarefeito; O resgate do soldado Ryan);

5. Você fez algo significativo na vida e se romantizar isso dá um roteiro passável (Erin Broncovit; Estrelas Além do Tempo; Nise, o coração da loucura; O jogo da imitação; Escritores da Liberdade; A Lista de Schindler; Selma: Uma Luta Pela Igualdade; Clube de Compras Dallas)

6. Você tem uma designação de gênero distinta e romantizar isso é um clichê aceitável (Todos Estão Falando Sobre Jamie; Azul é a cor mais quente; Meninos Não Choram);

7. Você era um Zé Ninguém, ou era até uma pessoa razoavelmente reconhecida, mas morreu tragicamente (Sérgio; Na natureza Selvagem; O Diário de Anne Frank)

8. Você tem uma vida medíocre e de repente acontece algo extraordinário (Homem Aranha) (ok, fiquei com preguiça de buscar roteiros tão clichês assim)


Acho que se a gente refletir um pouquinho, dá pra perceber que todos os filmes, mesmo que baseados em fatos reais, não são nada realistas, né? São obras de ficção que pinçam momentos extraordinários de vidas ordinárias, dão uma boa maquiada, colocam alguns atores bonitos e talentosos em uma fotografia impecável e pá: Mito do Herói. 

O mais clichê dos roteiros é o baseado no Mito do Herói e praticamente todos, 99,9% deles são Mito do Herói. Só que a vida real não é nada heróica. É uma odisseia monótona e muitas vezes sem sentido, em uma busca por algo que ninguém sabe o que é. 

Não tem um prêmio no final da aventura, não tem felizes para sempre, não tem subir os créditos no auge da vida do protagonista com aquela música comovente de fundo. 

Vida real é confusa, estranha, não tem roteiro, não tem ensaio. É improviso, um atrás do outro, cagadas homéricas, confusões idiotas causados por pequenas bobagens. Não tem diálogos inteligentes ensaiados para serem dinâmicos e completos. 

Não tem uma personagem durona, mas no fundo amável e acolhedora que pergunta: "Você está bem?". Nem em momentos de supremo sofrimento, menos ainda em momentos triviais. 

A vida é dura, é difícil, conflituosa, cheia de pequenos dramas que nem mesmo dão um roteiro razoável para entretenimento barato e novelesco. 

Viver dói e não tem marketing que deixe isso menos dolorido. Só aceita que sua vida não é um filme e pés no chão, a realidade chama. 

É isso que temos pra hoje. 

Agora, você pode se ver como a pobre vítima da realidade cruel, ou encarar essa realidade de frente, segurando o boi pelo chifre para domar a vida e tirar o melhor que ela pode dar. 

A vida é um saco. Mas a decisão de encher o saco ou estourá-lo de uma vez é sua. 

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Se cada um for um...

 Vivemos em um mundo estranho. 

Aqui, a virtualidade importa mais que a realidade. 

Aqui, cada um é um, se der sua opinião. 

Mesmo que fajuta. Mesmo que ignóbil. Mesmo que racista. Mesmo que machista. 

Mesmo que seja um monte de lixo saindo de uma latina pútrida. 

Vivemos sem querer viver, mas querendo aparecer. 

Aparecer por fazer o mal feito. 

Por ser o miserável, o pior exemplo, o mais escroto. 

Mas, desde que tenha seguidores: 

minha bunda é sua bunda;

minha desgraça vale likes; 

minha alegria é ter, consumir, ostentar; 

encher a cara de bebida, remédio, drogas, séries. 

E dizer que se foda, que sou assim e nunca vou mudar. 

Nessa vida sem sentido, esse é todo sentido que a internet vai te dar.  



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O mistério do cuecão preto

Chego cedo ao trabalho, como em todo dia quente, para evitar que o sol estabeleça seus raios (que o parta) em minha pele, e aproveitar o clima ameno produzido artificialmente pelo ar condicionado. Estou eu, sentada em minha cadeira, com um rock metal nos ouvidos, trabalhando prodigiosamente, quando aparece a assistente de serviço com a novidade mais quente do momento na empresa:

- acharam uma cueca preta no corredor.
Eu:
- quê?

Já comentei que adoro conversar com a assistente de serviço? Ela sempre sabe de tudo! Eu fico aqui, reclusa em minha sala ar-condicionada, em minha cadeira com vista para o mar, sem querer mais nada neste mundo. Mas ela não! Ela circula por todas as celas, ops, salas, e, por isso, sabe tudo o que acontece nos departamentos onde a vista não alcança.

- Uma cueca! - continuou ela. - E não era só uma cueca, era um baita cuecão! Foi a moça do RH que encontrou e tem mais: a cueca apareceu agora de manhã, porque ela foi a primeira a chegar e disse que antes a cueca não estava lá! Ela encontrou perto do bebedouro.
- Não brinca? Soltaram uma macumba no prédio?
- Uééé? Será? Macumba? Porque era uma cueca toda velha, rasgada e preta!
- Se não for macumba, não vejo forma de alguém perder uma cueca no meio do corredor de uma empresa como a nossa. Se fosse uma empresa de sex-shop, roupa íntima, fotografia, ou, sei lá, artigos para o lar, eu até poderia considerar, mas o que uma cueca faria numa empresa de tecnologia?

Assim, a conversa foi seguindo, de mesa em mesa, de sala em sala, ganhando novos palpites e amplitudes, mas o verdadeiro dono (ou dona) da cueca jamais foi encontrado (a).
Hoje não faço isso muito, mas em meus tempos de foca, eu criaria uma história, mais ou menos assim (pensando bem, eu continuo sendo foca):

certo funcionário, revoltado porque seu Vale Refeição não dava mais conta de tudo o que ele comia, resolveu fazer um protesto silencioso. Precisava ser um protesto que causasse, mas que não o identificasse. De que forma?
Veio a solução: um baita cuecão! 
E no meio do corredor, silenciosamente rindo, o funcionário, indignado, protestou.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cebola gosta de se ralar

Retomando a série "Vegetais Alienígenas do Espaço" (sim, o pleonasmo é intencional) 



Há tempos a Dona Cebola tentava subir na pia da cozinha. Seu sonho era ser ralada para virar molho. Um molho cheiroso, suculento, feito com cuidado e carinho, por mãos generosas que não mede ingredientes para criar um prato saboroso. Mas, por mais que tentasse pular, não dava, Dona Cebola sempre descia rolando.

- Ah, se eu não fosse tão redonda! - Dona Cebola repetia, desconsolada.

Cada dia era uma tortura. Ela ficava em sua cesta, vendo suas amigas cebolas serem selecionadas para virar salada, sopa, molho e até creme, mas ela nunca era pega e começava a perder sua casca. Temia ir para a geladeira, onde ficava a dimensão dos legumes esquecidos.

Dona Cebola sabia que, uma vez que entrassem na geladeira, os vegetais eram abduzidos e acabavam se transformando em vegetais-monstros assassinos horrendos! Cheios de fungos, bolotas de mofo e se desfazendo de podridão!

Aquilo, evidente, era coisa dos vegetais alienígenas. Dona Cebola não gostava deles. Ficavam tirando onda de orgânicos, em embalagens de plástico filme com isoporzinho embaixo, alguns tinham até redinha de proteção, uma frescura só!

Até que um dia, Dona Cebola viu uma forma de virar molho. O negócio parecia simples, intuitivo, tinha uma maçã nas costas e se chamava internet. Dona Cebola sabia que podia confiar nas maçãs, pois toda aquela história de Adão e Eva era só marketing viral, um meme. Ela buscou no Google uma forma de se autotransformar em molho e encontrou um blog destinado a vegetais solitários que queriam cumprir sua missão de vida: virar comida.

E de repente, ali, lendo aquele blog, ela se deu conta de que não estava só. Não porque o blog lhe dava respostas, mas porque tudo o que o blog dizia não servia para nada. O que ela precisava mesmo estava perto dela o tempo todo: ela tinha amigas cebolas. E elas sempre estiveram ali, dispostas a ajudar, mas Dona Cebola, orgulhosa e autossuficiente, nunca enxergara isso.

As cebolas trabalharam em equipe, revezando-se na vigília para que Dona Cebola estivesse na próxima leva de vegetais para a refeição. Até que um dia ela foi pega. E então, simples assim como a amizade, Dona Cebola cumpriu seu destino. Escorregou lindamente por um ralador repetidas vezes para se ralar e se tornou um belo molho sugo, em meio a tomates e salsas. Feliz, feliz, feliz!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Afinal, o chuchu existe mesmo?

Da série "Vegetais Alienígenas do Espaço" (sim, o pleonasmo é intencional) .

Segundo um teórico muito conceituado aqui no Universo Bizarro, o chuchu não existe. Isso porque ele passa frequentemente por crises existenciais, acreditando na sua imaterialidade dada a sua composição.

"Se tirar a água do chuchu ele some", teria afirmado certa vez um pesquisador indignado que não quis se identificar. O pobre chuchu, esculachado, recolheu-se à sua insignificância e olhou depressivo para o morango:
- Vou me juntar à minha espécie no Espaço. Os chuchus alienígenas são mais valorizados em seu planeta natal. Aqui somos meros legumes verdes.

O morango olhou-o enrubescido:
- Oh chuchuzinho, vai não, eu gosto de você...
E assim surgiu uma parceria entre chuchu e morango e eles começaram a trabalhar juntos pela valorização do chuchu. Com os contatos que o morango tinha no mundo vegetal, logo o chuchu se tornou celebridade e passou a figurar em receitas sofisticadas: Chuchu com nozes, Strogonof de chuchu, Doce de chuchu.

E apesar das dúvidas que ainda reinam no mundo terráqueo, ficou definitivamente comprovado: o chuchu existe.
Em tempo: chuchu e morango acabam, apesar dos rumores, não são um casal, apenas velhos amigos que dividem a mesma caixa de feira.






Morango e chuchu: uma parceria imbatível







quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vegetais alienígenas do espaço

Muita gente olha meu perfil no Orkut e me pergunta por que eu gosto de coisas tão díspares como ufologia, paganismo e ativismo ambiental. Ora, porque tudo está ligado e também porque tudo é relativo. O caro usuário que navega por esse ninho bizarro deve se livrar das amarras e paradigmas do pensamento comum e viajar na transliteração do óbvio: o universo é infinito e inacabado. Entendeu? Nem eu.

Mas a nova série do UniB, Vegetais alienígenas do espaço (o pleonasmo é intencional) vai mostrar o que ecologia e ufologia tem em comum. No próximo post, acompanhe as crises existenciais do chuchu e as tentativas do morango em ajudá-lo. Afinal, tem vegetal mais carinhoso que o morango?

terça-feira, 22 de abril de 2008

Humanidade se arma contra leis de Murphy: parte 3

Como a geleia resiste bravamente às tentativas de cair no carpete

Depois que os bravos designers da Becel conseguiram resolver o problema da aplicabilidade das leis de Murphy na tampa da margarina, um novo desafio foi lançado: como salvar a geleia da torrada. Muita gente passa a geleia em uma fatia apenas de pão, deixando uma grande margem de geleia disponível para as leis de Murphy avacalharem o lanchinho. E nem mesmo as torradas duplas se salvam! Pois nessas, a geleia ainda pode encontrar uma fenda para cair, conforme mostrado no diagrama a seguir. 

Esta se tornou uma nobre missão com um enorme potencial científico e, para ela, foram destacadas pessoas de cujo nível técnico e estratégico no tratamento da geleia eram incomparavelmente superiores aos de qualquer pesquisador: as donas de casa.

Com seus aventais denominados "nenhuma geleia passará", elas partiram na missão de encontrar a fórmula perfeita da geleia que não cai no carpete, nem com uma torrada embaixo. Depois de dias e noites de intensa pesquisa e mais de mil episódios de Ana Maria Braga, Palmirinha, canais de receitas no YouTube e novelas variadas, elas conseguiram.

Chegaram à formulação perfeita que anula exponencialmente as leis de Murphy: o sonho de geleia. Sim, aquele sonho da padaria que vinha com recheio de doce de leite, provou ser tecnologicamente compatível para contribuir com a resistência às leis de Murphy.

Com a geleia dentro do sonho, sem nenhuma fenda por onde possa sair, a lei não encontra aplicabilidade. E mais um caso da humanidade contra as leis de Murphy foi engenhosamente solucionado pelo exército de pessoas mais poderosas do mundo, que nunca deixam ninguém sair sem casaquinho e guarda-chuva.


segunda-feira, 14 de abril de 2008

Humanidade se arma contra leis de Murphy - parte 2

As fatídicas leis de Murphy estão com os dias contados. É o que garante um grupo de intrépidos pesquisadores que lutam diariamente para anular seus efeitos.

Na área do design, é onde vemos os resultados mais animadores. Os designers de embalagem da margarina Becel perceberam que o pote do produto apresentava uma inconveniência: a margarina se grudava à tampa. Isso não seria um problema, não fossem as leis do nosso querido cientista aeroespacial, Joseph Murphy. Quando a tampa caía no chão - geralmente com a parte de dentro para baixo, confirmando a lei - a sujeira grudava na tampa e o chão se enchia de margarina.

Cansadas de limpar essa sujeira, donas de casa do mundo inteiro se revoltaram e passaram a consumir menos margarina. Isso aconteceu concomitante ao aumento das informações divulgadas sobre o colesterol presente nos produtos, mas isso não vem ao caso.

Os designers da Becel, então, com seus empregos ameaçados, passaram noites e dias pesquisando formas de burlar as leis de Murphy. Tentaram de tudo: amarrar a tampa nas costas do gato, prender uma parte da tampa no pote, vender o pão já com margarina, mas cada teste trazia um inconveniente e não prosperava.

Até que certo dia, após uma longa jornada infrutífera de pesquisas e testes, um dos pesquisadores percebeu que sua bacia de pipocas podia cair sem que a manteiga do fundo tocasse o chão. Isso porque ela era côncava!

Uma verdadeira revolução estava começando. E a Becel lançou margarinas com menos colesterol e tampas anti-leis de Murphy. As vendas aumentaram e os empregos se mantiveram. E todos viveram felizes para sempre. Ou, pelo menos até o próximo problema causado pelas leis de Murphy, é claro. 

Não perca o próximo post sobre a resistência da humanidade às leis de Murphy:

A revolução do pão com geleia: como o principal ícone das leis sobrevive às tentativas de cair no carpete.

terça-feira, 25 de março de 2008

Mundo X Leis de Murphy




Edward A. Murphy (1918 - 1990) foi um engenheiro aeroespacial especializado em sistemas de segurança-crítica. Ele trabalhou na Força Aérea dos Estados Unidos realizando testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em piloto de aeronaves.

Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.

Essa é a forma mais conhecida que vem do princípio: "Se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma das formas resultar em catástrofe, então alguém a fará". Todas as leis de Murphy variam deste princípio. Parece pessimismo, mas não se esqueça que elas foram elaboradas para prever e sanar falhas na segurança de foguetes, antes que provocassem um acidente.

Quando Murphy começou a dizer suas leis em público, as pessoas riam achando que era algum tipo de piada. Logo surgiram variações como "O pão sempre cai com a manteiga para baixo". Murphy ficava muito chateado com isso. Dizia que estavam deturpando as leis fazendo-as parecerem ridículas.

Mas, o fato é que não há quem não atribua às suas leis o azar típico da segunda-feira – no meu caso – e maldiga até o cocô do cachorro de Murphy.

Tudo é atribuído ao pobre cientista: desde o aquecimento global até a neve no Iraque. Confira no próximo post o que a humanidade está preparando para combater as leis de Murphy. Que a força esteja com vocês!

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Como definir Deus?

De Einstein a Toby: As apreciações dos gênios a respeito da eterna questão.

Quando Einstein disse que "Deus não joga dados com o Universo", tentou explicar que nada no mundo está aí por nada. Mas, aí veio a física quântica e tudo ficou mais complicado ainda. Como diria alguém - que deve ser importante, mas não me lembro o nome: "Quanto mais eu sei, menos entendo".

Na revista Piauí, ninguém menos que Toby, um cavalo, pondera sobre a existência de Deus. Nem Napoleão, podia tanto com um cavalo branco. Separei um trecho para apreciação:

[...] Ser um cavalo falante me deixa com tempo de sobra para ponderar acerca desses grandes temas. Ninguém me monta, porque simplesmente digo logo para descer. Assim, tenho muito tempo livre. Às vezes, à noite, para passar as horas, eu canto; às vezes, paquero a beldade que anda no pasto vizinho, a Lily. Às vezes, exercito meus poderes, o que é divertido. Neste preciso momento, de fato, você não lê isto. Apenas pensa que lê. Na verdade, você está ligando para o serviço telefônico do seu banco e transferindo todo o dinheiro para a minha conta.

Na maior parte do tempo, no entanto, assim como fazem muitos outros cavalos, tento fazer anagramas de cabeça. Quando você vê um cavalo parado num pasto, olhando para você, na realidade ele está tentando recombinar letras na cabeça: "amor, ramo, roma..." É coisa natural nos cavalos. [...]
É por isso que o cavalo não inventou o computador, mas inventou - e pouca gente sabe disso - o sofá. Uma vez que você permita que idéias incompatíveis coexistam em seu cérebro, estará no rumo certo para virar uma boa besta de carga. Aqui está uma pitada de juízo de cavalo, saído de minha própria cocheira: qualquer resposta que escolher, a qualquer momento, será a resposta correta. [...]

JK: Certa vez no cursinho pré-vestibular, um professor de física afirmou que a ciência provaria a existência de Deus quando encontrasse a relação entre eletricidade e magnetismo. Haveria então uma fórmula, a fórmula de Deus. Quando comecei a gostar de metafísica, lá pelos 14 anos, tanto Shirley MacLaine quanto Nietsche tinham razão. O que confirma a tese de Toby. Mas, o professor de física também está certo. Não é engraçado?