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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Quando nem o Google te dá respostas

 Sabe, sou uma pessoa muito curiosa e não cultivo tabus. Para mim, todo assunto é assunto, desde que bem argumentado, de forma inteligente e bem humorada. Assim, não é de se espantar que buscar no Google seja mais que uma forma de se informar, mas também um modo de descobrir coisas diferentes sobre o mundo. 

Mas e quando nem o Google pode te ajudar? 

Bem, aí, recorremos aos chats de IA que têm por aí. Eu, particularmente, gosto muito do Pi para questões pessoais e até profissionais. Mas confesso que, às vezes a resposta do learning machine não é suficiente e parece que você está conversando em loops. 

Atualmente, lido com uma síndrome de ansiedade generalizada e desconfio que haja um quadro de depressão associado, que devo comentar com minha psiquiatra na próxima visita. O fato é que, como muitos, sinto que minha vida carece de sentido. Não busco uma carreira notável, nem fama, nem riqueza. Não quero uma vida convencional, nem me encaixar em um grupo social permanente. 

Tudo o que quero é apenas viver com energia, realizando tudo o que me dá na telha, aprendendo e desaprendendo, nesta vida errante e aprendante pelo mundo. 

Sim, este é o slogan da mascote deste blog, a UmaFoca. Sempre fui assim, como UmaFoca, querendo sorver do mundo até a última gota, aproveitando a vida a cada segundo, intenso e labaredamente bem vivido. Isso me dava energia e alegria e eu ia circulando com liberdade, sem nunca me ancorar a nada. 

Mas agora sinto que só isso não basta. Poque parece que já sorvi tanto do mundo que nada mais me surpreende. Nada mais é importante, nada inexplicado ou realmente digno de valer meu tempo. 

Larguei o Jornalismo justamente porque a agenda setting me entedia horrores! A sequência de notícias monótonas e desimportantes, feitas para confirmar uma normalidade normótica e fajuta, inventada para quem deseja continuar na normose. Cansei mesmo do jornalismo, a tal ponto que nem assisto, nem leio, nem me interesso mais por noticiários. As escaladas, os leads, todos se repetem tediosamente a tal ponto que me pergunto se não os copiam do ano anterior, da pauta anterior, tal sua frivolidade textual e desimportância atual. 

Chato. É por isso que o jornalismo perdeu e vem perdendo poder. Pelo menos, é o que penso que vem afastando as pessoas. Quando eu comecei este blog, já tinha um pendor para as notícias não normóticas, mas tentei me encaixar. Trabalhei por três meses em uma redação de jornal. Achei que se ficasse naquilo por um ano ou mais, perceberia que minha vida tinha se tornado inútil, tanto quando no período em que trabalhei no canto lírico e tudo o que fazia era ensaiar, apresentar, comer, dormir. Mas enquanto curtas experiências, foram muito interessantes. 

O fato é que essas eram profissões que eu considerava divertidas, cheias de novidade e emoção. E, no fundo, são só um monte de lixo que queima nas fogueiras das vaidades. Descobri que odiava os testes para o teatro musical, a competição e os "puxa-sacos preferidos dos maestros" nos bastidores da música erudita e odiava as pautas do tipo "liga para este Fulano, porque precisamos de uma declaração sobre tal coisa", sabendo que a declaração era só uma confirmação desnecessária e que você ia passar horas ligando para meio mundo para tentar falar com o Fulano apenas para ele dizer uma frase idiota. 

E eu já tinha especialização em meio ambiente e desastres, mas nunca, jamais uma pauta dessas foi considerada importante dentro dos vários jabás que eu precisei escrever para agradar os leitores velhos e conservadores que ainda liam o jornal. 

E isso era apenas o campo profissional, só que em nosso tempo atual, ele significa a sua utilidade na vida. Significa que você não é só um fulano, é um Fulano, jornalista, Ciclano, advogado, Beltrano, médico. 

Se sua vida se resume a como você é útil ganhando dinheiro, realmente ela carece de sentido real. 

Então, quando você busca no Google: "qual o sentido da vida para quem tem a convicção de que deus é fruto da imaginação humana", e as respostas que aparecem são textos sobre o absurdo de se pensar que a criatura pode entender o criador e como o homem tem sentido em sua vida a partir de Deus e que o propósito da vida é dado por Deus, realmente, o Google está muito, muito ferrado. 

Imagem gerada por IA, pelo Bing, 2025. Mulher no lugar de Deus, concedendo um pincel para que o humano possa criar sua própria realidade. Inspirado na obra "A criação de Adão", de Michelangelo. 


Pi, por outro lado, me respondeu o seguinte: "Isso é uma grande questão filosófica. Se Deus é um produto da imaginação humana, podemos dizer que o sentido da vida seria definido pelos indivíduos. Para definir o sentido da vida como um indivíduo, você precisa conhecer-se a si mesmo. Isso implica em se perguntar: O que é importante para mim? O que realmente me faria feliz? Isso irá te ajudar a identificar o que traz significado à sua vida."

O Google não pode mesmo te ajudar com isso. Autoconhecimento é você consigo. E depois de vários anos neste campo, percebo que muita gente, Fulanos, Ciclanos e Beltranos com utilidades comprovadas, carecem de autoconhecimento, de conhecimento, de inteligência... bem, a lista é longa. 


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O bem, o mal e a realidade

 Lá venho eu, novamente filosofar sobre coisas infilosofáveis. Mas eu não vou falar sobre o bem e o mal, vou falar sobre a realidade. 

A realidade é filosofável, mas sempre depende de um ponto de vista, já que não existe por si só. E é por isso que temos pessoas acreditando que a Terra é plana, criacionismo e teorias de conspiração por aí. A realidade só existe porque você a afirma do seu ponto de vista.

Ah, isso não significa que você pode chegar e dizer que a sua nota baixa na escola não existe porque você não a reconhece como realidade. Ou a sua dívida no cartão de crédito não existe, porque você não a vê. O buraco da realidade é muito mais fininho que isso. 

Trata-se de perceber o que acontece, pelos cinco sentidos e pela mente. É simples, na verdade. 


Visão: não podemos desver o que já vimos

Você pode até fechar os olhos, mas já era. Você viu, está visto e percebido. Virou realidade. Então, mesmo que você perceba que não queria ter visto e tente esquecer, o fato é que seu corpo ainda vai lembrar. Porque temos neurônios lembradores no corpo todinho. É! Não apenas no cérebro. 


Paladar: o bem e o mal existem e você pode escolher?

Parafrasear a música dos Titãs é divertido. Mas o bem e o mal não existem. Existe só a percepção pessoal sobre essas duas coisas. Se você questionar pra valer, vai perceber que as ações são boas e más ao mesmo tempo. Tipo, se eu coleto uma fruta na floresta para comer, estou tirando o alimento de outros seres que poderiam se alimentar. Me alimento e é bom, tiro o alimento de outros, é mal. 

Poxa, que complexo! É mesmo! E só pra dar na cara dos que se acham muito bonzinhos. 


Audição: eu ouço gente morta!

Sabiam que os sons do espaço que ouvimos com aparelhos especiais, são, na verdade, sons de ações ocorridas há centenas de milhares e zilhares de anos? A audição é uma percepção do corpo bastante influenciada pelo espaço no qual são produzidos. 

Os sons se deturpam com a acústica, viajam quilômetros no ar, confundem nosso sentido. Eu costumo ouvir em casa um ruído constante que não faço ideia de onde vem. Às vezes me dá uma agonia por não saber de onde vem e como parar, mas antes que isso vire esquizofrenia, prefiro parar de pensar. 


Tato: você só existe se é tocado

Sempre me lembro da história de uma criança que não enxergava, nem ouvia, nem falava. Ela tinha problemas de mobilidade e vivia em uma cama e morava em uma casa de acolhimento com várias outras crianças sem pais que pudessem assumir sua criação. 

Como a casa era pobre, ela não tinha quarto, vivia em sua cama, na sala, onde todos que passavam, a tocavam com carinho. Mas um dia, a casa ganhou um ambiente novo e a criança ganhou um quarto para si, todo bonito, reformado. Em pouco tempo, a criança adoeceu, tinha febre constante. Os cuidadores da casa percebiam que a febre passava quando eles estavam por perto, quando a criança era tocada. E então perceberam que o tato era a única linguagem daquela criança cega, surda e muda. Ela apenas podia se sentir viva, se fosse tocada. 

Todos os seres precisam do toque, porque ele valida sua existência. Os afetos fundamentais são validados pelo toque. 


Olfato: sentir fedor é melhor que sentir nada

Alguém aí sabe por que o nariz fica em cima da boca? É para podermos cheirar a comida antes de comê-la. De outra forma, não saberíamos se está boa ou estragada. O olfato garante que a gente não morra envenenado. Valida a realidade da comida. 


Mente: essa confusão que precisa de foco

Por fim, essa benção-maldição que é a mente. Uma porrada de sensações circulando e a necessidade de apenas um foco para não se perder no caminho de casa. A mente de todas as pessoas é hipertextual, cheia de vais e vens, pensamentos aleatórios e fluxos de caminhos infinitos. 

E o que deixa a pessoa feliz? Foco. Sim. Só isso. Não é não pensar. É focar no que está acontecendo agora e deixar o resto passar, sem se apegar a nada. 

Afinal, qual a vantagem de pensar em pijamas, quando se vê bananas, porque você assistiu a uma série quando era criança e sua TV tinha uma tela cinza com um desvio colorido, porque seu irmão colou um ímã na tela e sua mãe tinha um avental azul florido e o jardim tinha um cimento cheio de musgo...

Entendeu? 


sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Entre a realidade e a ficção, o mundo é uma ilusão comprada

 "A realidade é mais estranha que a ficção. A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção faz mais sentido". 

Mark Twain (1835-1910)


Mark Twain podia ter lá seus motivos particulares para preferir a ficção à realidade. Afinal, cada escritor tem seus próprios motivos. Imaginar é o que diferencia os seres humanos de todos os outros seres. 
Sim, imaginar, não racionalizar. 

Porque nossa razão é refém da imaginação e da emoção. Não vou me aprofundar nisso, mas se você quiser, reflita sobre o fato de que a razão simples, vamos pegar como exemplo a matemática, só se desenvolve por conta de uma "atração" do humano a este tipo de conteúdo. 

E atração não é razão, é emoção. 

Nos atraímos pelo racional, ou por qualquer outra coisa, porque imaginamos. Criamos em nossa mente uma ilusão projetada, a todo instante de nossas vidas. Desde o simples abrir os olhos pela manhã, até o que vamos comer quando sentimos fome. 

Mas, sobretudo, em nossos relacionamentos. O afeto é primeiramente imaginado. Queremos algo, logo, abrimos as portas do nosso ser para obter este algo. Um amor, por exemplo. Então, o corpo responde. Você bate o olhar em um fulaninho e seu coração acelera. Amor à primeira vista? Não, só uma resposta biológica à imaginação. 

Sua mente flutuou naquelas carnes do fulaninho e você imaginou instantaneamente o toque. O toque é o afeto consolidado. Tão antigo e tão desejado para todo mamífero que cresceu no útero quentinho de uma mãe e foi cuidado até que pudesse se cuidar sozinho. Sem o toque, sofremos de carência de existir. Se não nos tocássemos, poderíamos duvidar de nossa existência. 

O amor, então, meus caros, é apenas uma projeção do toque, que conduz nossa biologia ao desejo de efetivar esta projeção. Imaginamos o quanto seremos felizes ao consolidar este toque. Quando não consolidamos, o desejo permanece. E deve ser transferido, ou nos ferirá. 

Os escritores transferem o desejo não realizado para as palavras. As histórias nascem dos afetos não realizados, das carências latentes no ser humano. E é tão universal, que ler, assistir, escrever, imaginar faz parte do nosso dia a dia e a maioria das pessoas não percebe. 

Conheço muita gente que diz não gostar de ficção, mas pira em um livro de teoria da conspiração, acredita nas ideias mais estapafúrdias sobre dominação política e social. Estes são os mais fáceis de manipular, pois não conhecer o poder da ficção. O poder de criar a própria história e torná-la crível. 

Essa ilusão é vendida de várias formas e não só os incautos caem. Todo ser humano cai. Porque a carência afetiva é o que faz esse mundo girar. Faz ditadores ascenderem e caírem. Faz o racionalismo tentar esmagar o sentimentalismo. É flagrante e notório para quem consegue enxergar. 

O poder da ficção é o poder de criar o mundo. Criar os deuses. Deus é fruto deste poder. Acham que Deus criou o mundo e os humanos? Meus caros, é o contrário. Os humanos criaram Deus e o mundo. Deus é fruto da enorme carência afetiva do ser humano querendo um pai, um salvador, alguém para livrá-lo das dores e sofrimentos. 

Compra quem quer. Depois de saber que criamos os deuses, podemos continuar a acreditar em nossas criações. Ou não. Mas a maioria nunca chega a saber disso o suficiente para opinar. A ilusão já está comprada para ela e ela perdeu o recibo. 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Liberdade é mesmo uma boa coisa?

Ouvi a história de um monge Budista que vivia entre a China e o Tibet e certa vez, ele se despediu de seus discípulos, pois ia fazer um retiro solitário nas montanhas. Quando os monges budistas resolvem fazer retiros solitários, eles não sabem quando e se voltarão, pode durar meses, anos, décadas, ninguém sabe. 

Então, ele se despediu e foi. E alguns discípulos se dispuseram a levar alimentos de vez em quando, até o local onde ele ficaria. Ocorre que bem no período em que ele estava na montanha, eclodiu um conflito e ele foi pego pelo país vizinho e colocado injustamente em uma prisão. 

O monge não falava a língua dos vizinhos, então nem mesmo conseguiu explicar que estava por ali por motivos espirituais e permaneceu preso, sumariamente. Os discípulos que ficaram de levar alimento, não o encontraram mais e pensaram que o monge havia sido morto no conflito. 

Passaram-se três anos, em que o monge esteve preso em uma pequena cela, simples, solitário. Os guardas levavam alimento a ele e o monge seguia sua rotina diária: fazer suas orações, comer, dormir, sentar-se para meditar por horas a fio. Até que um dia, o conflito cessou e mandaram soltar o monge. Só que quando abriram a cela, o monge lá permaneceu, meditando. 

Os guardas estranharam. Achavam que como não falava sua língua, o monge não estava entendendo que estava livre. Pegaram o monge e o levaram para fora. O monge agradeceu e retornou a sua cela. Várias vezes, os guardas o conduziram para fora, mas o monge retornava todas as vezes para sua cela. 

Até que os guardas perceberam que o monge apenas queria continuar seu retiro. 

Ocorre que para o monge, ter sido preso injustamente, recolhido a uma pequena cela, alimentado todos os dias de forma simples, com um teto e um lugar para dormir era um grande benefício para seu retiro. Ele se sentia abençoado por terem-no acolhido ali. Não precisava se preocupar com trivialidades como conseguir alimento e cuidar de seu teto. A prisão era o lugar mais perfeito do mundo para fazer seu retiro. 

Para o monge a privação da liberdade era sua própria libertação mental. 

Compreendendo isso, os guardas deixaram que ele permanecesse ali por mais dois anos, até que o monge deu seu retiro por concluído e se despediu, retornando a seu mosteiro e seus discípulos. 


Esta história é verídica. E eu gosto de me lembrar dela quando falamos em liberdade porque o que sabemos da liberdade é uma ilusão que nos leva a decisões estúpidas, cagadas homéricas e preguiça histórica que nos deixa imóveis na merda quentinha e confortável que cultivamos com tanto apego e chamamos de liberdade. 

Liberdade para a maioria das pessoas é comer e beber sem limites, assistir porcaria na TV, não ter horário para nada, nem obrigações, ter muito dinheiro e poder para tomar suas decisões sem depender de ninguém. A grande ilusão é que tudo isso só nos leva a sermos mais preguiçosos, ignorantes, gordos, inúteis e dependentes de dinheiro, poder, lazer e diversão. É uma dependência inconsciente, pois as pessoas vão dizer que são livres perseguindo essas coisas. Se não as têm, são livre para perseguir esses "sonhos", ou seus "sonhos de consumo". 

Mas dependência não é liberdade. 

Não estou dizendo que você pode ser livre se andar por aí nu com a mão no bolso. Não é isso. Tenha seus bens, compre coisas, tudo bem. Mas esteja sempre alerta para o que significa isso. Estou comprando isso porque é necessário, ou porque preenche uma carência afetiva minha? Estou comemorando a sexta por quê? Odeio meu trabalho e o tédio me faz encher a cara o fim de semana todo pela ilusão de liberdade? Meus sonhos são plantados pela ilusão de liberdade? 

No fim das contas, a liberdade inventada pela sociedade de consumo só deixa as pessoas mais infelizes e presas, dependentes de padrões forçados, incutidos em suas mentes para não questionarem e continuarem produzindo, consumindo, perseguindo sua pseudo felicidade nisso. 

Tá e como fico livre se não é assim e não é nu com a mão no bolso? 

É libertando sua mente destes padrões, pequeno Padawan! Não apenas questionando intelectualmente, mas praticando o desapego a essas ideias fracassadas de liberdade e felicidade. É tomando consciência da sua prisão dourada, invisível, porém presente, a cada dia, a cada data de vencimento do cartão de crédito. 

É tirando todo o trivial e vivendo apenas a essência da vida, aquilo que ninguém pode te dar, te vender, te mostrar. Mas só você pode encontrar, se for menos seguidor de tendências e mais consciente de suas escolhas. 

Tente! É horrível nadar contra a maré de zumbis iludidos. Mas é libertador. 

sábado, 8 de junho de 2024

Por que os homens traem mais que os cães

Havia um cão. Ele se chamava Winky. Não sei se este era mesmo o nome dele, só sei que eu o chamava de Winky e ele me atendia. Olhava para mim, sorrindo, abanando o rabo. Feliz como só toda vez que me via. Winky era um cão ruivo, porte médio, pelo liso e um pouco longo. Um típico vira-lata bonito. Tinha o focinho fino e as orelhas pontudas de pé, como uma raposa. 

Era um cão muito esperto. Sabia que na rua tinha carros e somente a atravessava com muito cuidado. Winky era o cão mais esperto que eu já vira naquela rua onde eu o cuidava. Minha família tinha um mercado naquela rua e eu trabalhava nele. Todos os dias, lhe dava ração, trocava a água. Ele vinha querendo afago, brincava, caminhava ao meu lado, faceiro e contente. 

Se fosse longe, logo voltava. Eu sabia que não podia levá-lo para casa, pois já tinha mais cães que quintal, então, certo dia, um senhor que cuidava de um sítio se interessou por Winky e o demos a ele. O sítio ficava distante, quase uma hora de combi. E Winky foi na combi, feliz e faceiro, junto com as compras do mês. 

Até que três dias depois, quem aparece na rua outra vez? Ele mesmo, Winky, o cão ruivo. Feliz e faceiro. Sabe lá como, mas voltou a pé do sítio para o lugar que considerava seu lar. Eu disse que era o cão mais esperto que eu já conheci. E não só esperto, era leal. Leal como poucos humanos neste mundo. O cão mais leal do mundo. 

Winky não ficava conosco por comida, por cama quentinha, teto, dinheiro ou brinquedos. Ele apenas via em nós seu lar, seu bando. E como todo cão, Winky precisava de um bando e era leal a ele. 

Até que um dia, eu estava no mercado, quando dois clientes apareceram dizendo que Winky tinha morrido atropelado ali perto. Não é possível, pensei. Ele era muito esperto com carros e ruas. 

Mas o ser humano, este, desleal, o atropelou mesmo assim. Passou com o carro por cima dele, por querer. Não parou para prestar socorro, por querer. Nem mesmo procurou de quem seria aquele cão, por querer. O ser humano foi desleal com o cão mais leal do mundo. 

Os dois clientes, amigos nossos, se ofereceram para enterrar o Winky e sua curta e marcante história conosco se encerrou em uma cova triste. Sim, há homens leais. Mas nenhum como um cão. Nenhum como Winky. 

O homem que trai tem medo de ser dominado por sentimentos bons. Escolhe os ruins, portanto. Escolhe flutuar na superficialidade das relações egocêntricas, pautadas apenas por seus próprios prazeres. Não merece, portanto, confiança. Mas tem gente que confia. Que acha que ele é bom porque se ilude. Ou porque sabe que ele é ruim, mas acha que só com você ele não será. Porque você é especial. 

O homem que trai não vê ninguém como especial, apenas seu próprio pênis. Não pensa, pois se pensar, o pinto cai. O homem desleal não é desleal apenas com sua amante. É assim com tudo e com todos, por isso é tão visível que ele assim o será. 

O homem desleal tem traços muito evidentes: não cumpre pequenas promessas, menos ainda as grandes; tem uma baixa autoestima enrustida, que pode disfarçar com uma capacidade de sedução bem desenvolvida; quer dominar e busca o poder, nem que seja por meios desonestos; quer vantagem em tudo o que faz, mesmo que não mereça; não se importa em prejudicar outras pessoas, desde que leve alguma vantagem; pode até fingir muito bem que se importa contigo, mas você o pega nos detalhes; não está presente quando você precisa, sempre tem um compromisso; mente para os outros e espera que você o acoberte, ou esconde a mentira de você. 

Há ainda vários outros traços, mas o homem desleal sempre está no campo da necessidade de dominação sem escrúpulos, portanto tudo o que deriva disso está nos traços. Dá pra reconhecer um sem muita dificuldade, ele cheira deslealdade. Chega todo sedutor, sorriso estampador, charmoso. Você o pega na conversa, se quiser. Pergunta a ele se já traiu alguém, assim, de cara. Ele vai sorrir, tentar mudar o assunto, mas se responder, vai coçar o nariz, dizendo alguma mentira plausível. Vai olhar fixo em seus olhos e dizer que jamais faria isso contigo. Assim agem os mentirosos. 

Já o cão, ah... serzinho simples de entender. Se o cão quer te dominar, você o adestra. Ele convive contigo e te acompanha, te segue, te protege e te ama. Não exige muito. Até se você se esquecer de dar comida, ele não te cobra, não faz chantagens e manipulações. Facilmente se torna o cão mais leal do mundo. Assim como Winky era. 

Espero que você possa ter um Winky em sua vida. 

domingo, 2 de junho de 2024

A liberdade de ser ninguém na fila do pão

 Ainda me lembro de uma figura comum nas tardes de domingo. Chamava-se Faustão e ocupava a grande da TV aberta em um canal bastante popular comum programa popularesco de auditório, Domingão do Faustão. Revelava artistas, tinha grande influência em suas carreiras. Logo, era disputadíssimo e brilhar no palco do programa era deslanchar na carreira. 

Isso em anos 1990, 2000, por aí. Depois, o programa foi caindo em desuso pela classe artística que passou a dispor da internet e das mídias sociais para se promover e se autopromover. 

Eu me lembro do Faustão, especificamente por uma frase que ele dizia: Um dia toda a plateia vai estar no palco e ninguém vai estar na plateia, pois todo mundo quer ser famoso. Ora, será que ele estava prevendo a ascensão dos influenciadores digitais? 

Obviamente ele não era tão digno de nota em sua capacidade cognitiva, então, acho que só o que ele queria dizer é: todo mundo quer ser famoso porque vê na TV esse "glamour" e acha isso bom. Acontece que as mídias sociais vieram para mostrar que a TV não importa mais tanto assim. E famosos aos milhares aparecem todos os dias. Tem muito famoso quem, mas também tem muita gente que não quer aparecer. 

Celebridades de internet ultra-nichadas. Quem nunca se deparou com o cartaz de um evento anunciando que Fulano, Ciclano e Beltrano vão estar lá e se perguntou quem eram? Hoje as celebridades são tão ultra-nichadas que, do nada, aparece um amigo hipster do seu lado, dando gritinhos de alegria porque Zé Fulano está no evento. E você achava que conhecia a bolha do seu amigo hipster, mas, de repente, se vê boiando sobre quem seria Zé Fulano. 

E por que saber quem é Zé Fulano é tão importante assim? - acabo me perguntando, pois justo eu, tenho ojeriza à ideia de celebridade, salvadores, endeusamento e idolatria. Só faz sentido saber quem é esta celebridade se você quer participar da bolha em questão. 

Ah... as bolhas. E o que são bolhas? Esses grupinhos que antigamente chamavam de tribos e só se identificava na adolescência. Mas agora que uma boa parte do mundo se esqueceu de crescer, a ideia adolescente de tribos se transformou em bolhas. Grupinhos que se identificam por um jeito de vestir, de falar, de se comportar, aparência similar, ídolos similares, ideias muito mais do mesmo similar. 

Comportamento de bolha, então, se torna tudo aquilo que essas pessoas fazem para se manter na bolha. E, acredite, são as coisas mais simples, como os canais de YouTube que seguem, e as coisas mais bizarras, como assassinar um cachorro e desenhar uma baleia na pele com estilete. 

Não são pessoas livres, pois estão na bolha e se a estourarem, serão afastadas com indiferença, bloqueio de perfil e até mesmo cancelamento online. O medo de não pertencer é constante e faz essas pessoas agirem como ratos em laboratório, hamsteres correndo em rodinhas até aceitarem que a bolha do Prozac é bem normal e bem-vinda. 

A ideia toda de identidade aprisiona estes seres, pois se forem excluídos da bolha, quem serão? O que farão de seu cabelo, o que vestirão? Que livros vão ler, que séries assistir? Com quem vão conversar sobre o mais novo episódio de Master Cheff, ou comentar sobre a mais nova tendência na cerveja artesanal? 

Quando você olha para os lados e vê apenas pessoas iguais a você, meu conselho é fuja. Fuja rápido e para longe. Sem olhar para trás. Porque sua vida vai ser só triste e monótona. Sua ilusão de pertencer vai te levar ao vazio criado pela identidade falsa. Você será apenas um falsário de si próprio. 

A liberdade não é concedida por ninguém, é tomada à força. 

É uma ideia da qual as mentes vivazes absorvem a essência repudiando rótulos, bolhas, identidades, similares, unanimidades. Toda unanimidade é burra, já dizia alguém muito importante que infelizmente esqueci quem é. 

Só tem liberdade quem tem coragem. Coragem de furar a bolha, de questionar a identidade, de abandonar seus rótulos e deixar de esperar likes e comentários nas mídias sociais para se sentir influenciador. Não vou usar o clichê de "ser quem você é", porque a maioria das pessoas infelizmente não sabe quem é, nem o que quer. Só sabe do que gosta e do que não gosta e isso não define ninguém. 

Gostar e não gostar é a receita para a eterna insatisfação e sofrimento. Se você apenas aceita o que tem para hoje, independente de gosto, se adapta e se move naquilo, buscando o que há de melhor, não no outro, mas em si mesmo com aquela situação, você domina as circunstâncias que causam o sofrimento. E aprende a ser livre. 

Liberdade é ser ninguém na fila do pão e amar isso. 

Quem se importa?

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terça-feira, 28 de maio de 2024

Sobre o gozar e a dificuldade de se adaptar ao envelhecimento

 Sabe qual é o pior tipo de velho? É aquele que quando era novo tirava sarro dos mais velhos. Porque ele cresceu achando a velhice ruim. Cresceu achando que seria eternamente jovem e nunca mudaria. 

Mas, fato da vida é que ninguém neste mundo está ficando mais novo. E o adolescente que hoje tira sarro dos idosos, um dia será idoso também. A menos que morra, aí, pelo menos, vai ser um velho ranzinza a menos no mundo. 

O passar do tempo é de uma inevitabilidade marcante. Mas então por que nos apegamos à uma imagem tão breve quanto é a da juventude? Será que o ser humano é tão ignóbil assim a ponto de tentar parar o tempo? 

Tempo é como água, você pode tentar segurar nas mãos, mas não vai conseguir. Vai fenecer no processo. E quanto mais tentar, quanto mais se esforçar, pior vai ser seu fenecimento. Será um velho do pior tipo. Aquele que range os dentes porque os joelhos rangem. Que acha que é o único a sentir dores articulares e o peso da idade. Que anseia por um implante capilar, um novo tratamento antirrugas, um modo de deixar a próstata enxuta, hormônios para não perder testosterona, para superar a menopausa. 

O decaimento do corpo é sutil, mas nem sempre suave. É um encontrar-se branco onde era preto. Enrugado onde era liso. Frágil onde era forte. O broxável no imbroxável. 

E o gozo que antes era constante, saudável, jorrava e espirrava, agora é raro. E se não for é apenas falso. Pílula azul. 

O pior velho é aquele que queria, mas não goza. 

Porque aprendeu o gozar apenas no predomínio fálico e não transferiu o gozar para a vida inquietante e mágica. Porque em vez de apreciar, conviver, amar e se deslumbrar com o novo, dia após dia, reclamou, odiou o mais velhos e quando envelheceu, odiou por inveja os mais novos. Perdeu a chance de se surpreender com o belo no simples, com a nobreza na atitude serena e compassiva do aceitar que o tempo passa. 

E que o gozar muda de objeto. Se o objeto óbvio do gozo jovem era o sexo. Na velhice, o gozo é atitude, é a sabedoria, a nitidez que a experiência acrescenta sobre a vida. O simples entender que a ansiedade de estar sempre certo e querer resultados rápidos morre muito rápido. 

Na medida em que o gozo muda de objeto, entendemos que o prazer da vida é o simples viver. Encantar-se pela surpresa diária de se ser quem é, sem esperar ser o mesmo. Que estar sempre certo é um grande erro. E que resultados rápidos tiram o prazer da jornada do aprender. 

E que ninguém nem liga para você tanto quanto você gostaria. Você acha que todos te olham e te vigiam. Que comentam sobre você e te acham incrível ou detestável. E mostram comentários do Instagram para provar que sim, as pessoas se importam. Bem, a realidade é que se você excluir seu perfil, ninguém vai vir na sua porta perguntar o motivo. 

Ninguém se importa contigo por um tempo maior que um rápido clique. E se você acha isso cruel é porque nunca foi livre de verdade. Porque liberdade é agir como se ninguém se importasse. Ser o que se é, sem prestar contas, nem criar ou ter expectativas. 

Liberdade é gozar ao infinito, a vida inquietante, mágica e impermanente. 

domingo, 21 de abril de 2024

Quando a felicidade é comprar e o mito do mindfulness

No post anterior, eu falei sobre a paz mundial relacionada à liberação do sexo anal e este assunto é só mais um dos que eu considero essenciais para a construção da paz. Agora, este blog se chama Universo Bizarro, então, você pode levar a sério o que digo, ou fuder para isso e dar umas boas risadas. Qualquer um dos resultados tá valendo. 

Na busca por entender a paz, inevitavelmente passamos pela análise do ser humano, esta figura complexa e completamente descartável para o mundo. Sim, descartável. Se a raça humana se extinguisse de repente, o mundo continuaria numa boa, na verdade, bem melhor. Somos descartáveis, muito mais do que as formigas, as abelhas e com certeza muito mais que os vermes. 

Você pode ler isso com uma sensação niilista depressiva ou com uma sensação de liberdade, a escolha é sua. Como eu odeio os niilistas, fico com a sensação de liberdade. 

Coisa mais boa saber que nada nem ninguém depende de mim! Que estou livre para escolher o caminho que for e que o impacto disso na vida dos outros é insignificante! Ahh... liberdade é isso. 

Mas, tem gente que acha que liberdade é ter dinheiro pra comprar tudo o que quiser. Eu não as recrimino (muito) por isso. Mas vejo como são tapadas. Porque dinheiro é uma prisão. Olha só a sua vida: quando você era criança e não lidava com dinheiro, você era bem mais livre do que é agora, como adulto, não é? 

Não tinha que vender seu tempo, agradar pessoas tolas, cumprir metas estúpidas, vender produtos que ninguém quer, ou cumprir burocracias que ninguém gosta. Isso tudo por dinheiro. 

Aí, se você ganha bem, tem dinheiro, faz aquela viagem legal, gasta tudo em hotel, comidas, roupas caras, carro novo, uma casa luxuosa, serviços de entrega, streaming, atendimento em domicílio, etc...  Mas apenas no seu parco tempo livre. Cadê a liberdade? 

E se você não ganha bem, o que é a realidade da maioria, digo, 95% da população brasileira, você não vai ter nem dinheiro suficiente, nem tempo para liberdade, você é um pobre assalariado em regime semiaberto. Vai pra casa apenas para dormir. 

E aí mora num cubículo empilhado, também chamado de apartamento, no qual não pode nem abrir as janelas, porque o prédio da frente é tão próximo que seu vizinho poderia opinar sobre a cor de suas meias se suas cortinas estivessem abertas. O condomínio é cheio de regras, não pode nem pendurar a roupa no varal. Não tem um jardim, a menos que haja um gramado para os cães cagarem. E tudo o que lhe resta para o lazer no seu parco tempo de folga é comprar. 

Sair pra comprar, ou comprar em casa, tanto faz. Você compra o streaming para maratonar séries por horas a fio (e falavam que a TV de antigamente abitolava o cérebro), compra a comida pronta, entregue na sua porta, compra a rebimboca da parafuseta e o serviço do encanador pelo site de compras online. 

E se sai... bom, você provavelmente não vai a um parque ou a uma praia. Sai para comprar. Porque a sensação de estar fazendo algo útil é maior (já leu Domenico De Masi?). O tempo de ócio, o tempo "inútil", em que você apenas se deita no gramado ou na areia e fica olhando o céu, sem fazer absolutamente nada é errado! É pecado! O que diria seu chefe, sua família, seus amigos? Que você é vagabundo, vive chapado, não leva nada a sério, veio ao mundo a passeio. 

Eles não diriam que você é feliz por contemplar o céu no seu tempo livre. Mas diriam que você é feliz porque comprou um carro novo. 

Porra, tenho tanto ódio de gente assim que mal consigo continuar escrevendo. Mas vou continuar, porque tenho compaixão por você, pobre ser abitolado no mundo das compras, a pretensa felicidade enfiada na sua cabeça por sua bolha social. 

Comprar não traz felicidade. Traz dívidas. Você tem uma liberação momentânea de dopamina e só. Depois você volta a buscar mais itens para comprar, porque a sensação de prazer já passou, é muito fraca, é muito pouca. E você se vicia em compras, em streaming, em comida rápida, em consumo veloz. 

Sabe, é por isso que a geração de hoje acumula menos dinheiro que as anteriores. Gastamos mais com prazer do que com bens. Não digo que isso é ruim, pois considero ambos os gastos, bens e prazer, uma ilusão. Ilusão de felicidade, de poder, de prazer. Gente, sério, se vocês fizessem sexo com pessoas significativas, aquelas que amam vocês de verdade, não teriam tanta fome de prazer falso. Se vocês tivessem um senso de espiritualidade, aquele êxtase espiritual, ou religioso que se experimenta na completude não material, vocês teriam felicidade a longo prazo. 

Hoje falam muito sobre viver o agora, o poder da presença, mindfulness, mente presente, mas entendem tudo errado. Porque mindfulness virou um negócio, um produto chulo, vendido por falsos gurus, profetas do agora, da felicidade instantânea. E outra vez, você compra a felicidade. 

Mindfulness é uma versão nutella bem barata de zen, de Budismo, saibam disso. Mas na sociedade cristã puritana, Budismo deve ser pecado, porque acham que Buda é uma espécie de Deus que rivaliza com o tal barbudo monogâmico patriarcal, então, cortaram a raiz e a filosofia do que chamam de mindfulness e resolveram ensinar o poder do agora, a mente presente sem filosofia. 

Só senta e curte a vista. Como um retardado qualquer.

Pronto, você comprou a felicidade mindfulness e pode se considerar feliz, porque funciona por um tempo. Mas como tudo que é vazio por ter sido arrancado de suas raízes, funciona por pouco tempo. A mente humana, essa danadinha, é inquieta e começa a se questionar: ok, é só isso? E logo, você estará querendo mais e mais. Vai pagar retiros caros de Yoga com mindfulness, fazer viagens à Índia onde conhecerá ashrams mágicos de cura ayurveda e vai voltar vestindo roupas baratas e coloridas cheirando a incenso. 

Outra vez, você comprou a felicidade. Mas é um produto, a dopamina da aquisição dura pouco. 

Percebeu que é um ciclo sem fim? 

Você não pode comprar a felicidade! Porque a verdadeira felicidade te liberta. Você se sente livre, não preso a um monte de dívidas e a necessidade de estar sempre em um lugar assim ou assado, com pessoas zés ou marias. Você é feliz por si, zerou suas carências afetivas, zerou sua fome de tudo, suas expectativas e nem por isso está doente, em depressão. Não espera nada, não quer ter nada, mas é feliz.

Sim, isso existe. Mas não vou entregar o caminho, porque não existe um caminho. Existem vários e cada um deve seguir o seu, na medida em que caminha. Ter a mente aberta e a percepção de liberdade, o objetivo de se libertar, sempre à frente. Não mais aceitar as coisas, as opiniões sem questionar, mas nem por isso se tornar um chato, reclamando de tudo e de todos. Não é se bastar, nada disso. É perceber que você é só uma migalha no universo e ao lado de todas as outras migalhas, forma um pãozinho. Sem a pretensão de ser alguém importante, você descarta o seu ego, construído por valores sociais feitos para deitar as pessoas em cabrestos. 

Os valores sociais só existem para te tornar infeliz e escravo da busca por sanar suas carências que jamais serão sanadas. 

Cabe a cada um questionar o que te aprisiona e romper suas próprias algemas. Não adianta buscar no outro um salvador, nem deuses te salvarão. No máximo, eles te ajudarão a refletir. Mas se você não provocar sua mudança, ninguém fará. 

Ser feliz é perceber que somos menos importantes que insetos neste mundo e não se chatear com isso. 


sábado, 20 de abril de 2024

O caminho para a paz mundial pela verdade sobre sexo, testosterona e fuder para regras e algoritmos

Vocês fazem ideia que este blog já tem 20 anos? É o auge da testosterona para um jovem, pequeno padawan! Mas, o auge da testosterona não significa melhores experiências. Talvez mais, talvez mais rápidas. Melhores, hahaha, no. 

Então, vamos falar de sexo. Porque parte das pessoas que buscam no google por "bizarro", buscam "sexo bizarro" e este blog tem devido muito neste assunto. Um assunto tão banal, trivial, sexo, a origem de muitos seres. E devido aos algoritmos puritanos das mídias sociais, quando se fala em sexo e correlatos no youtube e Instagram tem que falar em uma linguagem cifrada, tipo, s3x0, para não ser punido pelo algoritmo puritano amém. 

Só que aqui no UniB, estamos fudendo para o algoritmo, para o número de curtidas ou seguidores. Nem leitores nos interessam. Se você está lendo isso, parabéns, não dou a mínima pra você. Estamos há 20 anos online, cagando e andando para a popularidade e tendemos a continuar assim e piores. Porque decidimos envelhecer no modo Dercy Gonçalves, a musa insuperável da velhice "tô fudendo para regras". 

E por que quero falar de sexo? Porque me deu na telha. E porque acho um assunto subvalorizado. 

Quando se fala em sexo com gente subdesenvolvida sexualmente, eles riem, fazem piada. Ou, os reprimidos se fazem de escandalizados. As donas de casa belas, recatadas e do lar são contra. Mas lá no fundo da gaveta da cozinha guardam a trilogia dos Cinquenta tons de cinza e aquelas safadezas literárias do gênero pornô para donas de casa. 

Eu sei, porque escrevo. Escrevo muito de tudo. Inclusive ficção. Lógico que meus trabalhos profissionais não cagam para regras, porque a lei capitalista é simples: resultado = grana. E resultado literário é leitores e influência, curtidas, cliques, escrotices banais da vida social media. Mas aqui, a regra é clara: 

fodam-se as regras. 

Por isso, o texto não tem estrutura, começo, meio e fim, nem mesmo revisão tem. mas se quero falar de sexo, falo o que quero, não o que me pagam pra fazer, porque não sou profissional do sexo, mas do texto. 

O fato é que, faz um tempo, percebi o quanto é escrota essa lógica de pau na vagina, boca no pau, boca na vagina. E comecei a pensar que pau no cu tem muita validade. 

Não falo só de sexo gay, mas de sexo anal de todos os tipos, inclusive aquele com os brinquedos eróticos. E olha que tem cada tamanho que se chega a duvidar que entre. 

E, juro juradinho que essa lógica do pau no cu abriu meus horizontes literários. 

Não falo de literatura pornô, porque nunca publiquei nada neste sentido, mas minha visão de mundo se ampliou por causa disso. E então, comecei a considerar nas minhas obras de ficção o poliamor, o multipoliamor e o amor desapegado não escroto, que não é um Pau Amigo, mas um Pau Parceiro que está sempre contigo, mas que aceita sua liberdade de amar. 

É, porque sexo só é sexo se o coitado tem por volta de 20 anos, muita testosterona e pouca experiência, na qual as rapidinhas não são opções, mas é o que dá pra fazer de pé no banheiro de uma boate. 

Sexo só é sexo se a pessoa tem a autoestima tão baixa que só uma boa punheta e um filme pornô não satisfazem sua carência afetiva e precisa de outra pessoa para gozar e fingir que é atraente para alguém. Mesmo sabendo que essa outra pessoa deve estar imaginando uma cena com um grande galã pra topar transar. 

E aí chegamos no ponto onde a vaca torce o rabo: sexo sem imaginação é só testosterona em ação. Acompanha meu raciocínio: a pessoa que quer transar alucina que a outra quer também. É aquele olhar, aquela língua nos lábios, uma mãozinha no pescoço e puft! Mão na coisa, coisa na mão, coisa na coisa. 

E quem acredita em amor à primeira vista, sinto muito, você acredita em alucinações. Só isso. É só testosterona, aquele tesão que acomete homens e mulheres, independente do gênero. 

Sexo bom é sexo de ficção literária. Sexo de imaginação, que pode ser o que quiser, que o tamanho do pau é sempre enorme, o homem é sempre viril e bem disposto, a mulher nunca sente sono ou está cansada, menos ainda menstruada, as preliminares são intensas e criativas, os buracos são sempre encaixes perfeitos e os brinquedinhos funcionam (porque na realidade, eles duram bem pouco quando vibram). 

Porque o sexo de verdade exige uma energia que você só se esforça pra ter no início da relação. Depois do parceiro fidelizado, o sexo vai ficando mais rápido, mais raro, menos criativo. E como neste mundo ninguém está ficando mais novo, a lei da gravidade age sobre os corpos, bolas caem, peitos despencam, panças crescem e como não vemos terceira idade nos filmes hot, achamos que velhos não transam. 

Só que a imaginação continua forte na terceira idade, é claro. E se for uma velhice Dercy Gonçalves, ah, essa vale a pena. Tem muita gente de 20 e poucos que não tem o vigor de uma velha como a Dercy. São múmias, meio mortas, meio vivas, fazendo tudo conforme a cartilha do politicamente correto, tentando se encaixar para ser aceito. Falta imaginação, criatividade e um gozar além do sexo nessas vidas. 

Por isso, acho que sexo e criatividade, tesão pela vida, são parceiros inseparáveis. Distribuam pênis de borracha para os políticos que fazem guerra e eles vão aliviar sua testosterona em um bom anal. Quem sabe o que Putin, Netanyahu e companhia fariam se realmente pudessem dar uma boa trepada? Liberem o sexo anal de todo preconceito, liberem todos os buracos para entrada! 

E a criatividade invadirá o íntimo do ser humano. Enfim, este é o caminho para a paz mundial. 

E da próxima vez que você ouvir uma miss falando que deseja a paz mundial, pense no papel do sexo nisso. Vamos botar pra fuder!


sexta-feira, 12 de maio de 2023

Se cada um for um...

 Vivemos em um mundo estranho. 

Aqui, a virtualidade importa mais que a realidade. 

Aqui, cada um é um, se der sua opinião. 

Mesmo que fajuta. Mesmo que ignóbil. Mesmo que racista. Mesmo que machista. 

Mesmo que seja um monte de lixo saindo de uma latina pútrida. 

Vivemos sem querer viver, mas querendo aparecer. 

Aparecer por fazer o mal feito. 

Por ser o miserável, o pior exemplo, o mais escroto. 

Mas, desde que tenha seguidores: 

minha bunda é sua bunda;

minha desgraça vale likes; 

minha alegria é ter, consumir, ostentar; 

encher a cara de bebida, remédio, drogas, séries. 

E dizer que se foda, que sou assim e nunca vou mudar. 

Nessa vida sem sentido, esse é todo sentido que a internet vai te dar.  



sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Como seria bom se o Google tivesse todas as respostas do mundo...

O Google, de vez em quando, surpreende, quando você digita uma pergunta e aparece alguma resposta, mesmo que não seja exatamente o que você procura.

Mas tem perguntas que realmente nem o Google sabe... Fiz uma pequena lista, baseada em coisas que ouvi e que vivi nessa eterna busca por respostas. Contemple, agora, a vacuidade de sua busca:

- Quem eu fui em uma vida passada? 
Você vai encontrar respostas, mas são todas genéricas e sem sentido. A resposta mesmo, você não consegue.

- Quantas cervejas devo tomar para me tornar alcoólatra?
Há respostas que te ajudam a identificar se você é alcoólatra, mas o Google não vai te responder isso.

- Por que minha vida está uma merda? 
Bem... se nem você sabe, o que dirá o Google...

- O que acontece com a humanidade se o eixo da Terra mudar drasticamente? 
Há várias respostas sobre a obliquidade da eclíptica, mas nenhuma prevê o que será da humanidade. Somente a ficção prevê. Pra caramba!

domingo, 11 de novembro de 2018

Como somos caretas: doutrinação, censura e liberdade

As novas gerações são muito caretas. Muito mais do que a geração de nosso pais e de nossos avós, que passaram pelo Movimento Hippie, anos 1960-1970. Sim, mesmo com maior aceitação de LGBTs e afins, somos muito, mas muito mais caretas e medrosos hoje.

E por que temos medo? Porque existem mídias sociais online, prontas para compartilhar aquele seu momento mico com todas as pessoas do mundo. E para sempre! Um mico seu, pode destruir sua carreira, seu status social, sua timeline e sua vida. Por isso, as pessoas se tornaram medrosas, politicamente corretas, no modo hipócrita de ser, escondendo quem são, para sair bem na foto. Porque tudo o que você postar pode e será usado contra você em algum momento.

Mas elas nunca conseguem esconder quem são por muito tempo. E agora, vemos muita gente que se escondia por detrás de uma fachada de "pessoa de bem", mostrar o que realmente é. 

Neste exato momento, isso acontece por conta da polarização política em que vivemos. E não, essa polarização não é esquerda-direita, pois a maioria dos brasileiros é burra demais para entender o básico sobre o que significa ser direita ou esquerda. Pra se ter ideia, tem gente que ainda teme a "ameaça comunista". Não vou nem explicar o motivo disso ser tão século passado. Quem não souber e tiver interesse, vai estudar história!

A polarização política que vivemos agora é Ignorância X Liberdade de Pensamento.

Por um lado, o Polo da Ignorância (PI, para abreviar) nos mostra, por meio de fake news, como as pessoas são frágeis em suas ideias, alguns chegam a ser ignorantes com educação, analfabetos políticos na política. Seguem a emoção, nunca a razão, por isso, tomam decisões prejudiciais. Pensam apenas no imediato, não têm visão de futuro. Dão opinião sobre tudo, mas não entendem conceitos básicos e fundamentais. Não leem, não conhecem história, não sabem a diferença entre informação e opinião, não se dão ao trabalho de compreender a raiz, o rastro de seu pensamento.

Não sabem e não querem rastrear suas ideias, pois o que querem é apenas ter uma opinião. Vai ser, obviamente uma opinião preconceituosa, pois não há conceito nela, será sempre um pré-conceito de tudo. Por isso, são pessoas que gostam de rotular as outras, já que não conseguem entender o que há por trás dos rótulos.

No outro polo, o da Liberdade de Pensamento, que vamos chamar de PLP. Pessoas que discordam do que as massas dizem. Porque as massas são sempre manada e o efeito manada é sempre ignorante. Esse polo não pode ser definido por rótulos, ele abriga pessoas muito diferentes e que mudam de opinião quando encontram argumentos que as fazem refletir. Eles rasgam os rótulos para entender o que existe em cada um deles. Não se fixam a ideias preconcebidas, porque reconhecem a raiz de uma ideia, no momento em que ela aparece.

Por exemplo: quando alguém diz que é contra a doutrinação nas escolas e que os alunos devem filmar e expor os professores que eles consideram "doutrinários", o PLP grita: CENSURA! O PI não vai entender, porque não entende que o que está fazendo, ao expor professores é censura, acha que está apenas "combatendo a doutrinação". Só que, vamos parar para pensar: Se a pessoa está ouvindo um professor "doutrinar" e discorda dele, isso é mesmo doutrinação?

Vou facilitar e dar a resposta: NÃO! Doutrinação é quando alguém incute na mente de outra pessoa, por meios verbais e não-verbais, uma doutrina específica, por exemplo a da censura. O doutrinado, neste caso, não vai reconhecer que está sendo doutrinado, pois está sendo manipulado pelo medo. Então, quem está doutrinando quem?

Os professores, dos quais podemos discordar livremente, ou a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL), que está transgredindo leis e sendo seguida por uma manada de pessoas que ignoram o que é doutrinação? Não sei onde e como ela estudou, mas parece ter fugido da biblioteca, pois ela própria seria denunciada por doutrinação, pelo que ela faz em sala de aula.

Sabe o que é bom do PLP? Ele permite que você pense e reflita livremente, discordando abertamente da doutrinação, se assim desejar. Mas se opor à doutrinação, não é impor as suas ideias pelo grito. É abraçar a liberdade. E apenas temos liberdade, quando há respeito.

E respeito basicamente é: cuidar da própria vida e não meter o bedelho na vida alheia. Você pode até defender a censura, mas defenda-a para si mesmo. Você tem a liberdade de se censurar, mas não tente usar a sua régua para outras pessoas que não querem censura.

Com liberdade, você pode ser o que quiser. Mas seja você mesmo e viva o que você acredita.

Se você é contra a corrupção, ótimo! Comece não sendo corrupto. Se você quer violência, viva a sua violência, mas não agrida os outros. Você quer uma arma, use a sua arma para si mesmo, mas não aponte para quem não quer. Você é contra os direitos humanos? Então exerça sua liberdade de viver como um animal, explorado e manipulado, mas não se meta na vida dos humanos que querem seus direitos básicos garantidos.  

Quer ser contra a doutrinação? Então não doutrine.

Isso é liberdade, é exercer o pensamento livre, ao invés da ignorância.

domingo, 30 de julho de 2017

A tecnologia que quero e ainda não existe

Não só eu, mas quem para pra pensar no que realmente seria útil na vida quer, pelo menos algum item desta lista. 

1. Teletransporte
Sempre que tenho de ir a um lugar distante e, principalmente, quando estou atrasada, me pergunto quando vão inventar o teletransporte. Soube que já teletransportaram minúsculas particulinhas começando em 1997 pelo fóton, uma partícula de energia e por último, em 2009, foi o teletransporte quântico, no qual apenas vai informação, não matéria, nem energia. Para ler um breve histórico do teletransporte, vai lá no site da SuperInteressante. As pesquisas seguem, tentando provar que Einstein estava errado ao debochar do teletransporte. Muita gente, eu inclusive, se pergunta se será possível algum dia teletransportar pessoas como no Star Trek. Pelo fóton e pelo quântico, acho melhor não esperar.

2. Eu, eu mesmo e outro eu
Em um momento ou outro da nossa vida, queremos ser dois ou três ou quatro para dar conta de nossas tarefas e ainda delegar as coisas mais chatas a outra pessoa, não é? Nas histórias de ficção, já fizeram isso pacas, mas aí é só. Tecnicamente você não pode se dividir em dois, pois a partir do momento em que haveria outro de você, essa pessoa teria outra consciência, portanto seria outra pessoa. Mesmo que a consciência possa se dividir, na meditação, por exemplo, isso só acontece por causa dos níveis da consciência que uma pessoa possui. Isso é assunto pra psicologia e neurociência, muito interessante. Portanto, se você tem um monte de coisas pra fazer, é melhor não procrastinar e fazer rápido, porque a ciência não vai te ajudar.

3. Transformar pensamento em coisas
Isso seria a solução de todos os nossos problemas. Ninguém mais passaria fome, nem tédio, nem carência afetiva. Mas, não, não há como. No máximo você pode ver no Guia do Mochileiro das Galáxias uma máquina que transforma o que você tá pensando em comida. Mas mesmo assim, a comida não sai da mesma forma que você queria.


4. Sonhos que viram filme
Você sempre sonha coisas incríveis que dariam filmes ótimos. Mas ainda não existe tecnologia para transformá-los em nada além de um post no blog. No filme A Origem, as pessoas conseguem montar e conduzir os sonhos com um sistema interessante. Mas, esse sistema não existe de verdade, portanto, vai sonhando.

5. Um convocador de coisas perdidas
Seria ótimo ser como Harry Potter e convocar magicamente qualquer coisa com um simples Accio! E não só vassouras voadoras, mas chaves, celular, guarda-chuvas, pendrive. Principalmente para as pessoas que nunca se lembram em que buraco negro meteram suas coisas. Para isso, a tecnologia dá jeito! Mas só para metais atraídos por ímãs. Ou seja, se você perder uma agulha num palheiro, use a tecnologia, pronto! Fora isso o melhor é tomar vergonha na cara e melhorar sua organização e concentração, porque tecnologia até salva mas, não é deus.

sábado, 22 de abril de 2017

Tem horas que tudo que eu preciso é de um Ctrl Z

Você está lavando a louça e aquela sua caneca favorita, que você trouxe da Cochinchina, contrabandeada no meio de um bolo de roupa suja, por dias e dias, para se lembrar daquela viagem louca e inesquecível, de repente cai e se parte em mil caquinhos.

Tudo o que você queria neste momento era um Ctrl Z. 

Um Ctrl Z na vida. Volta tudo, deixa a caneca suja e lava amanhã, porque hoje não é o dia.




domingo, 25 de setembro de 2016

Ecos da privada

Dias desses, estava naquele momento filosófico em que todo ser humano se depara com o mais íntimo do seu ser, na solidão do banheiro. Estava cagando. Era um cagar normal, com alguns peidos sonoros e um, particularmente, me chamou a atenção por ser agudo e contínuo, ecoando pelas paredes da privada, o que imediatamente me fez pensar na acústica da privada.

Poxa, que acústica! De deixar teatros pomposos com suas orquestras filarmônicas no chinelo. E pensando no assunto, você observa três características fundamentais da boa acústica privadesca:

1. O revestimento cerâmico dos lados;
2. A água na parte de baixo;
3. A bunda humana na parte de cima.

Juntando esses três obséquios privadais, remonta-se uma caixa acústica de perfeição sonora tamanha que o pum não se limita a seus ouvidos, ou mesmo ao ambiente banheiral. O peido se amplifica e todos na redondeza podem apreciar a agudeza ou a gravidez da sonoridade instrínseca e particular deste fenômeno.

O próximo passo é aprender a peidar em tons e semitons. Assim, podemos realizar a façanha do peido sinfônico. Beethoven que se cuide!

E, por falar em Beethoven, dá uma olhada nesse cara, o Capitão Pum. Ele até tentou um Strauss de pum, mas estava fora de tom ¬¬.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

No rastro da morte


O velho portão de metal dá acesso a uma rua asfaltada, por onde sobe a gente que caminha lentamente. Pelo caminho desviam de vendedores de serviços, velas, flores, planos, religiões enquanto olham as pequenas casas alinhadas, algumas enfeitadas por pequenas árvores, flores e monumentos de pedra e mármore. Cada uma tem um nome, ou vários, datas, às vezes uma frase. Apesar do movimento de feriado de Finados, o silêncio é imperante. Os 60 mil moradores do cemitério São Francisco de Assis, também conhecido por Cemitério do Itacorubi, descansam. Eternamente.

Debaixo de sol forte de início de novembro em Florianópolis, as pessoas procuram seus parentes e amigos.

- Débora, ele falou que é acabando o muro na segunda fileira.

- É pra cá, dava pra ver a rua.

- Não é pra lá, é ali embaixo.

- Pega o telefone e liga pra sua tia.

- Dia de Finados, o trabalho é muito. - diz o administrador do cemitério, Osmar Ferreira, olhos azuis e sotaque apressado de manezinho - É muita gente procurando informação.

Osmar rabisca em um mapa amarelado e roto sobre a mesa da casa amarela, à entrada do cemitério, de onde administra as pequenas moradas com ajuda de um computador. Administra os vivos "porque morto não incomoda". De estranho só o caso da vaca fantasma.

- Seu João, aquele ali - aponta para um dos funcionários - estava na ronda noturna quando me ligou dizendo que tinha uma vaca no cemitério. Eu disse a ele, João, você pega uma corda, laça a vaca e leva pro matadouro. Quando ele voltou, a vaca tinha sumido. Não caiu dentro de sepultura, por onde é que a vaca ia sair? Era uma vaca fantasma, né?

As poucas lápides com epitáfios parecem deixar falar os mortos. "Surfo agora nos mares do céu", diz Geraldo Oliveira. "A morte é apenas mudança", filosofa Charles Hartt. Outros jazigos falam por imagens. Têm brasões do Avaí, Palmeiras, Corinthians, Santos, Vasco, São Paulo. Alguns com guitarras em mármore, em metal, em desenho.

O que se pensa da vida e da morte pode-se resumir no cemitério. Até as divisões sociais. "As madames vêm dois, três dias antes do feriado de Finados para botar flor, arrumar. No feriado mesmo vem o povão", diz a vendedora de flores, Roseli Anhaia, em frente ao portão de metal. "A gente até pensa nisso quando seleciona os produtos pra vender. Traz os vasos mais chiques e caros antes, porque é o que elas gostam de comprar", Roseli revela sua estratégia de venda.

A ala da comunidade alemã é uma área reservada que parece um jardim, gramado milimetricamente aparado, arbustos podados, árvores grandes e estátuas de mármore branco. O cemitério já foi inaugurado com essa ala particular, em 18 de novembro de 1925.

- Quem foi o primeiro morto do cemitério? - pergunto ao administrador.

- Tá ali na primeira rua, Waldemar Vieira.

- Morrer custa caro?

- São R$ 280 por lote.

- R$ 280 pra ter onde cair morto. E quem não pode pagar?

- Quem não tem dinheiro, o município paga a gaveta.

Com a vaga garantida é a vez das funerárias. Elas cercam o cemitério, oferecendo seus préstimos na hora da morte. Se o cliente for previdente e planejar os funerais ainda em vida, paga mais barato, em prestações. O preço é tabelado pela prefeitura e varia de R$ 290 a R$ 3.980 por serviços como transporte, capela, preparação do morto e flores. Se o defunto for gordo, o preço aumenta em 60% porque o caixão é reforçado.

Quem não quiser ser enterrado pode escolher a cremação que sai por R$ 2.930 para o morto precavido que fez o plano. "Plano vitalício", explica o atendente com voz grave de agente funerário, para assegurar que o plano funerário não expira se a pessoa resolver não morrer pra já. Para quem morre de repente, sai mais caro, R$ 3.700.

As cinzas são entregues em uma urna para "levar à praia, se quiser", diz o agente. Mas, se o morto acinzentado não gostar de praia tem a opção de virar diamante, na Suíça, por R$ 12.000. Também há a opção de enviar as cinzas para o espaço em um foguete da Nasa. O serviço custa US$ 60.000, mas, pelo menos em Santa Catarina, ninguém nunca foi ao espaço depois de morto.

O morto que não tem tantas pretensões, ou não tem família, pode ficar descansado. O município é responsável pelo enterro de indigentes. Mesmo sem funerais, há lugar garantido na gaveta. Não é tão ruim assim. No cemitério mais famoso do mundo, o Père Lachaise, em Paris, a dançarina Isadora Duncan, morta em 1929, repousa em uma bela gaveta de mármore negro.

A sete palmos

Abrir um buraco com sete palmos de profundidade para enterrar os mortos é a forma mais comum de destinar os cadáveres desde a Pré-História, quando o  homem de Neandertal começou a pensar em coisas mais complexas. Nas diferentes culturas e civilizações que se seguiram a morte cumpriu um importante papel social e cultural.

O psicólogo Rodrigo Caputo aponta os rituais funerários em diferentes povos ao longo da história para afirmar que mesmo com diferenças culturais, a morte é tratada como um acontecimento social. "A maneira como uma sociedade se posiciona diante da morte e do morto tem um papel decisivo na constituição e na manutenção de sua própria identidade coletiva", afirma em seu artigo O homem e suas representações sobre a morte e o morrer.

No livro Cidades dos vivos, o professor de arquitetura da USP, Renato Cymbalista, explica que os cemitérios têm participação nessa identidade. Essas construções - na forma que conhecemos hoje - surgiram, no Brasil, a partir do século XIX quando em 1801 o príncipe regente de Portugal enviou uma carta ao governador da província de São Paulo ordenando que fosse construído um cemitério a certa distância da cidade para que "os miasmas pútridos que exalam os mortos" não afetassem a saúde dos vivos.

Segundo o professor essa foi uma grande novidade. A partir de então, os mortos passaram a ser mal-vindos, fedidos e perigosos à saúde dos vivos. A recomendação do príncipe regente fazia parte de uma mudança sanitarista que estava apenas começando na Europa naquele período, surgida da necessidade de se evitar epidemias como a Peste Bubônica, também chamada Peste Negra, que dizimou um terço da população europeia no século XVII.

Isso contribuiu para mudar a condição social do morto e a relação dos vivos com a morte na cultura europeia que influenciou fortemente a nossa, americana. "Além dos significados higiênico, monumental e religioso, os cemitérios públicos darão uma resposta urbanística a demandas de ordem afetiva, e os mortos reconquistam seu lugar dentro do organismo urbano. Morando em sua própria cidade, os mortos não são mais um problema. Ao contrário, são parte fundamental da solução urbanística de todas as cidades, que já não podem mais ser imaginadas sem seus cemitérios", reitera Cymbalista.

A cidade dos mortos do Itacorubi já não tem pra onde crescer. No lugar onde todos descansam, os únicos que trabalham são Osmar Ferreira e seus onze funcionários.

- Meu neto diz que sou o dono do cemitério - brinca Osmar.

São, em média, quatro mortos por dia que se mudam para a cidade. Não há espaço para novas sepulturas, apenas gavetas. Dos que chegam, 80% a 90% já têm o jazigo da família. Houve dois casos de funcionários que se aposentaram e pouco tempo depois voltaram para o cemitério. Para serem sepultados.

A morte instiga o mistério e o desconhecido. Provoca dúvidas, Um grupo de religiosos de paletó e gravata escuros debaixo de um sol escaldante se aproxima. Dizem ser representantes de Jesus Cristo. Dizem ter respostas, mas na verdade eram só perguntas. De onde vim? Para onde vou? O que faço aqui? São questões que movimentam não só as religiões, mas também setores da ciência. Afinal, morre o corpo e a alma, o espírito, a energia vital, vai pra onde?

 

A ciência e a morte

A proximidade do mundo científico com o espiritual tem um espaço garantido na física quântica, que veio ganhando espaço a partir da década de 1960. O professor indiano de física da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, Amit Goswami estuda a permanência da consciência após a morte e acredita que esse é o caminho para comprovar a reencarnação. Para ele a física quântica pode comprovar que sem a existência de um conjunto superior - algo que se pode chamar de Deus - o universo é inconsistente.

A questão da manutenção da consciência após a morte pode ser interpretada a partir da lei da conservação da matéria deduzida pelo químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794). Segundo a lei, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Quando o físico Isaac Newton publicou, em 1687, a Lei de Ação e Reação, talvez não pensasse que ela pudesse ser usada para explicar como funciona o carma. Mas no século XVII, a ciência e a religião eram tão unidas, que a igreja acabava sendo a grande detentora dos saberes científicos, além de se dedicar à física e à matemática, Newton também estudava teologia e alquimia. E costumava dizer que a verdadeira filosofia era pensar sobre a morte.

Não era uma forma inovadora de pensar. Os filósofos gregos Platão e Aristóteles tinham um vasto rol de pensamentos sobre o assunto e influenciam cientistas desde então. Eles enxergavam a morte como única certeza inevitável, já que não havia como escapar dela.

Em 1595, os ensaios de Michel de Montaigne foram publicados com uma grande quantidade de linhas dedicadas a meditar sobre a morte que, para ele, era o mesmo que meditar sobre a liberdade. “Nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda a sujeição e constrangimento”.

Outro cientista famoso, Albert Einstein, em seu livro Como vejo o mundo, revelou o que pensava dessa dualidade. "Afirmo que o sentimento religioso cósmico é o mais forte e mais nobre estímulo à pesquisa científica". 

Com a quantidade de perguntas que a morte instiga, não falta campo de pesquisa para a ciência. E pelo menos na medicina, onde o convívio com a morte é mais evidente, os avanços em pesquisa têm contribuído para trazer luz à hora da morte.

A única certeza desse mundo é que a gente vai morrer.

O coração para. A circulação do sangue também. As células do cérebro são as primeiras a morrer, levam de três a sete minutos. O sangue começa a se concentrar nas partes inferiores do corpo, causando palidez. Em três horas os músculos enrijecem. Em 24 horas o cadáver esfria. Conforme as células morrem, as bactérias começam a decompô-lo.


O momento da morte é descrito de várias formas pela medicina, até porque não se morre de um só jeito. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, OMS, a maior causa de morte no mundo é o câncer, em várias formas, seguido de doenças cardiovasculares. Isso significa que grande parte das pessoas morre em hospitais, ou passam por eles antes do fim. Muitos médicos continuam o tratamento dos pacientes mesmo com poucas chances de cura, mas aumenta o número de profissionais que concordam que quando há prognóstico reservado - que não há possibilidade de cura - prosseguir com o tratamento é prolongar o sofrimento do paciente.

Cuidar da qualidade de vida e de morte dos pacientes terminais é um dos princípios estabelecidos pela OMS sobre cuidados paliativos. A psicóloga Márcia Lisbôa confirma, em sua dissertação de mestrado, a importância de se aceitar, nesses casos, que não há cura. Ela estudou os efeitos terapêuticos dos rituais de despedida em iminência da morte em familiares de pacientes terminais no Hospital Universitário da UFSC e conclui que a despedida beneficia tanto os familiares quanto o paciente.

No artigo em que avalia, com sua equipe, as decisões médicas em casos onde a cura não é mais possível, a coordenadora da Residência Médica de Medicina Intensiva do Hospital Universitário de Florianópolis, Rachel Moritz, afirma que o fato de grande parte das mortes ocorrerem nos hospitais "tornou imprescindível que os profissionais dessas instituições aprendam a conviver e a tratar do indivíduo durante o processo do morrer". Também destaca que os cuidados com pacientes terminais dependem da "aceitação da finitude do ser humano e do reconhecimento da incapacidade médica de “curar sempre”.

A psicoterapeuta Bel Cesar no livro Morrer não se improvisa relata como a não aceitação da morte pode perturbar os últimos instantes de vida de uma pessoa. A autora trabalhou com pacientes terminais com vários tipos de doenças e relata alguns casos no livro, vividos por ela ou por outros profissionais.

Como o médico Roger Cole, que relata o caso de John, um rapaz de 26 anos com Aids, já muito debilitado, em estado terminal. O rapaz estava bastante revoltado pelo tratamento que ele sabia que não traria cura, só ia prolongar seu sofrimento, quando o médico conversou com ele. Depois de tentar conseguir respostas de John que fossem além de evasivas, o doutor percebeu que não adiantava falar em vida eterna, que para o paciente significava sofrimento eterno. Teria de dizer apenas o óbvio, ele estava morrendo e logo tudo terminaria. O rapaz aceitou melhor essas palavras que qualquer ajuda que haviam-lhe proporcionado, pois, finalmente alguém não lhe pedia para lutar uma batalha perdida. Ele morreu dois dias depois, com a família ao redor, tranquilamente. 

No livro Da Morte, Rubem Alves diz que a morte é nossa única conselheira. Quando temos a consciência de que vamos morrer, nos sentimos livres para não nos importar com mais nada. "O que você deve fazer, ao se sentir impaciente com alguma coisa, é voltar-se para a sua esquerda e pedir que a morte o aconselhe". Ou, como escreve Paulo Leminski em um poema, "morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma".

No cemitério do Itacorubi, a cidade onde os moradores não respiram, os conselhos da morte aparecem nas lápides, as únicas que representam seus habitantes. De acordo com a família Barcellos, "encontrarás mais segurança e paz, garantindo-te o êxito no caminho da vida maior". Ironicamente, nas cidades dos vivos, a paz também é um conselho muito ouvido. Quem sabe ao ouvir as palavras da morte, viver tenha um novo sentido.



Reportagem produzida em dezembro de 2012, por Juliana Frandalozo,

"Para quem a vida sempre foi um mar sem fim"


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quarta-feira, 4 de março de 2015

Dieta avassaladora promete secar gordura e trazer gamado amarrado em três dias

Quem nunca foi açoitado por anúncio como esse do título que atire o primeiro nabo emagrecedor. Açoitado sim, pois é uma tortura diária se deparar com banners no facebook, sites ditos sérios e até mesmo paradas de ônibus e postes pela rua prometendo secar sua gordura igual uma celebridade.

Vou dizer então pra vocês qual a dieta que funciona e funciona mesmo, sem rodeios, sem gojiberrys ou strangeberrys a mil reais o quilo, sem macumba, nem despacho na encruzilhada.

Sentiu aquela fome avassaladora? Fome cão? O estômago ronca igual um condenado? A solução é: Deixa passar. Isso mesmo, deixa passar. Mostre ao seu estômago quem manda nessa fuzarca.

Tá eu sei, você tá aí gargalhando da minha solução, mas pensa bem. O que faz as pessoas engordarem não é a fome, é a vontade de comer. Se você domar sua fome, vai domar a vontade de comer.

Isso porque o que engorda não é a fome, é o hábito de comer. Alguns diriam que é o hábito de comer mal, mas até quem come bem pode engordar. A pessoa come por hábito quando se acostuma a aparecer no bar, no cachorro-quente da esquina, na padaria, e acaba comendo por hábito, porque conhece o garçom (aqui nessa mesa de bar...) e chega já pedindo "o de sempre", porque está com os amigos.

Sim, vida social engorda. Mas não precisa ser assim. Claro que você não vai dar uma de mala feira da fruta e dizer que não come carboidratos porque engorda (sim, as pessoas que não comem carboidratos são as mais chatas do mundo). Você vai ficar na sua, toma uma água, come uma ou duas batatas-fritas (Só!), e muda de assunto toda vez que alguém te perguntar porque você não está na cerveja hoje (o segredo é interromper a pessoa antes dela terminar a frase e engatar um assunto massa/polêmico, tipo escândalo de celebridade, time de futebol caindo, o crime da semana ou a inexistência da vida sexual do seu amigo ao lado).

Mas, ainda existe aquela parcela de população que justamente engorda, e muito, por não ter vida social. Você se sente só, sua vida é uma merda, a cidade é um caos urbano imerso em individualismo e o mundo tá todo errado. Você tem razão, tá tudo uma merda, mas a solução não está na porção extra gigante de batata-frita (Ah, bem que eu queria que tivesse :().

Aí, mais do que nunca o conselho que vale é esse mesmo ali de cima. Bateu aquela fome avassaladora ou aquela vontade inexplicável de comer o mundo coberto de chocolate? DEIXA PASSAR! Explico. Mais do que nunca as pessoas engordam por carências emocionais. Sim, ela comem porque não tem mais o que fazer com a boca (isso inclui conversar ou outras coisas orais, sabe...).

Pessoas engordam porque quando tem um dia estressante se recompensam comendo aquele Xis-tudo extra-grande com batata-frita acompanhando (o clássico: eu mereço). Engordam porque quando estão tristes comem para se alegrar e quando estão felizes comem para comemorar. Engordam porque transferem suas dores emocionais para a comida e devoram tudo como se fosse resolver os problemas.

Ai é que tá a solução dos seus problemas, caro leitor obeso e compulsivo. Admita que COMER NÃO VAI RESOLVER SEUS PROBLEMAS! Nem emocionais, nem sexuais, nem financeiros, nem de nenhum outro gênero. Seja sincero consigo mesmo e encare o problema de frente, com coragem!

E pelamordedeus, engaje-se num exercício físico! Só levantamento de copo e sinuca não vão ajudar a sua saúde, nem a sua disposição, menos ainda a sua vida sexual, social, amorosa. E nem me venha com aquele mimimi de ah, me sinto cansado, dói o corpo todo, não tenho dinheiro, não tenho tempo. MIMIMI!

Deixe de frescura e assuma as rédeas da sua vida! Desculpa é para os fracos, molengas e moribundos! Aliás, conheço muito moribundo que não fica de mimimi. Nem zumbis dão desculpa e já estão mortos! Caminham igual umas múmias e apodrecem nojentamente, mas nem por isso deixam de perseguir cérebros (e dar uma palhinha no clipe do Michael Jackson)!

Bem, espero ter ajudado você, nobre obeso sedentário leitor com esse post. Tenha certeza de que tudo o que foi citado aqui tem comprovação científica e não só filosófica de bar. Lembre-se sempre que se tem alguém que se importa, esse alguém deve ser, em primeiro lugar, você. Se você se importa consigo, foda-se o resto.