terça-feira, 28 de maio de 2024

Sobre o gozar e a dificuldade de se adaptar ao envelhecimento

 Sabe qual é o pior tipo de velho? É aquele que quando era novo tirava sarro dos mais velhos. Porque ele cresceu achando a velhice ruim. Cresceu achando que seria eternamente jovem e nunca mudaria. 

Mas, fato da vida é que ninguém neste mundo está ficando mais novo. E o adolescente que hoje tira sarro dos idosos, um dia será idoso também. A menos que morra, aí, pelo menos, vai ser um velho ranzinza a menos no mundo. 

O passar do tempo é de uma inevitabilidade marcante. Mas então por que nos apegamos à uma imagem tão breve quanto é a da juventude? Será que o ser humano é tão ignóbil assim a ponto de tentar parar o tempo? 

Tempo é como água, você pode tentar segurar nas mãos, mas não vai conseguir. Vai fenecer no processo. E quanto mais tentar, quanto mais se esforçar, pior vai ser seu fenecimento. Será um velho do pior tipo. Aquele que range os dentes porque os joelhos rangem. Que acha que é o único a sentir dores articulares e o peso da idade. Que anseia por um implante capilar, um novo tratamento antirrugas, um modo de deixar a próstata enxuta, hormônios para não perder testosterona, para superar a menopausa. 

O decaimento do corpo é sutil, mas nem sempre suave. É um encontrar-se branco onde era preto. Enrugado onde era liso. Frágil onde era forte. O broxável no imbroxável. 

E o gozo que antes era constante, saudável, jorrava e espirrava, agora é raro. E se não for é apenas falso. Pílula azul. 

O pior velho é aquele que queria, mas não goza. 

Porque aprendeu o gozar apenas no predomínio fálico e não transferiu o gozar para a vida inquietante e mágica. Porque em vez de apreciar, conviver, amar e se deslumbrar com o novo, dia após dia, reclamou, odiou o mais velhos e quando envelheceu, odiou por inveja os mais novos. Perdeu a chance de se surpreender com o belo no simples, com a nobreza na atitude serena e compassiva do aceitar que o tempo passa. 

E que o gozar muda de objeto. Se o objeto óbvio do gozo jovem era o sexo. Na velhice, o gozo é atitude, é a sabedoria, a nitidez que a experiência acrescenta sobre a vida. O simples entender que a ansiedade de estar sempre certo e querer resultados rápidos morre muito rápido. 

Na medida em que o gozo muda de objeto, entendemos que o prazer da vida é o simples viver. Encantar-se pela surpresa diária de se ser quem é, sem esperar ser o mesmo. Que estar sempre certo é um grande erro. E que resultados rápidos tiram o prazer da jornada do aprender. 

E que ninguém nem liga para você tanto quanto você gostaria. Você acha que todos te olham e te vigiam. Que comentam sobre você e te acham incrível ou detestável. E mostram comentários do Instagram para provar que sim, as pessoas se importam. Bem, a realidade é que se você excluir seu perfil, ninguém vai vir na sua porta perguntar o motivo. 

Ninguém se importa contigo por um tempo maior que um rápido clique. E se você acha isso cruel é porque nunca foi livre de verdade. Porque liberdade é agir como se ninguém se importasse. Ser o que se é, sem prestar contas, nem criar ou ter expectativas. 

Liberdade é gozar ao infinito, a vida inquietante, mágica e impermanente. 

Frequentadores de academia: personagens ou gente real?

Olha, já gostei muito de frequentar a academia. Aquela de ginástica, não a de cérebros. Mas hoje, depois das lesões nos joelhos, tenho tido repetidas tentativas de retornos e desistências, porque a motivação que eu tinha antes das lesões, miou. E motivação é tudo, te dá energia, alegria, mesmo na contrariedade. 

Hoje, a única coisa que me diverte na academia é observar as pessoas, um hábito que adquiri desde criança e hoje atribuo ao meu autismo. Eu não sabia como me comportar, então observava e copiava. Com o tempo, passei a entender mais de gente, fui para o teatro e comecei a escrever histórias de ficção com centenas de personagens. Me interessei por psicologia. 

E assim, minha observação de pessoas passou a ser mais técnica, mais profunda. A academia é um lugar fascinante de observação e reitera algo que eu tinha observado em retiros de silêncio: todos acham que estão sendo observados pelos outros, mas ninguém olha para ninguém, apenas para si próprio. 

Isso é muito curioso! Fica bem evidente na vestimenta, maquiagem, olhares furtivos, inclusive no espelho. As pessoas querem ser notadas. Mas não se esforçam para enxergar os outros. A menos que seja para criticar. Aí...

Vamos aos personagens
Tem um rapaz na academia que frequento que entre os próximos foi apelidado de GI Joe. Sim, aquele bonequinho militar dos comandos em ação, uma franquia de brinquedos que virou desenho e filme para catapultar as vendas. 

E porque o apelido? Primeiro, porque, de acordo com o que eu soube, ele é um entusiasta das forças armadas. Usa umas roupas camufladas, tem um jeitão marrudo e gosta de conversar sobre forças militares. Mas ele não é militar. Dois militares veteranos que frequentam a academia já conversaram com ele e atestaram que o cara é só um fanático, não tem nenhum histórico em nenhum órgão militar. 

Daqueles militares de boutique. 

O que leva ao segundo motivo: as roupas que ele usa. Bem aí, eu comecei a chamar a figura de GI Joe Barbie, porque ele vai dos camuflados aos microshorts colados na cor branca, de um dia para outro. Usa um mp3 player rosa e um óculos vermelho, mesmo dentro da academia. Aparentemente, calças coladas são muito seu estilo. E coladas daquele jeito que dá até para saber se a pessoa tem uma ou duas bolas. 

Ou seja, a figura é só estilo! Uma mistura de GI Joe e Barbie, duas influências muito distintas para um personagem apenas. Mas seu comportamento também é digno de nota: nos dias mais inspirados, ele puxa cargas altas e depois de soltar, ele berra com o aparelho. 

Ele nunca vai saber, mas ir à academia e observar o figurino do dia do GI Joe é uma motivação muito importante para essa atividade tão chata. Como disse, adoro observar pessoas e ver nelas, personagens, me deixa realmente com mais animação do que as músicas puntz puntz que insistem em tocar nesses lugares. 

Hoje, vi uma senhora que aparenta ter já seus 60 anos, com uma roupa macacão estampada. Muito compenetrada em seu treino, parecia uma hard worker, com seu fone de ouvido e celular rolando vídeo, sem se distrair com ele. Tem outra senhora, de 86 anos, que faz musculação e Karatê. E tem as moças, de vários estilos: as gordinhas que querem emagrecer; aquelas com personal que parecem sementes de atletas; aquelas "bumbum na nuca" que vão bem maquiadas com roupas coladas e curtas; aquelas mais simplonas, tipo camiseta e calça. 

De homens, tem alguns senhores cabeça branca: uns bem fortinhos; outros barrigudos. Tem alguns veteranos fortes também. Mas a maioria é de rapazes em busca de shape. Uns mais discretos, do tipo short e camiseta e outros do tipo selfie no espelho, regata bem cavada. Tem um rapaz, cabelos encaracolados e óculos, camisetas nerd. Vai todos os dias bem cedo. O que prova que nerds não derretem se vão para a academia. 

Estas observações me ajudam um pouco a diminuir o tédio absoluto de continuar frequentando a academia, pois minhas motivações que uma vez eram: vou estrelar uma peça de teatro musical; vou fazer um endurance; vou fazer o Caminho de Santiago; hoje são apenas: vou fazer esta merda para tentar adiar a artrose até os 60 anos. 

Não é uma boa motivação, confesso. Mas não existe teatro musical para cadeirantes. O mundo é cruel com aqueles que não têm saúde. Por isso, se você tem, esforce-se para não perdê-la. Porque uma vez perdida, recuperar é mais difícil, e por vezes, impossível. 

sábado, 25 de maio de 2024

A moda de mendigar na internet

Estava lendo um artigo sobre psicologia humana e ao final, na sessão de comentários, me deparo com o quê? Um comentário mendicante: 


Além do despropósito de o comentário estar em um artigo que falava sobre vingança, ou seja, nem mesmo entrava no assunto assistencialismo ou qualquer coisa parecida, a mensagem em si me chamou atenção pela absoluta dificuldade de a pessoa que escreveu nem mesmo conseguir se expressar propriamente em uma frase razoavelmente construída. 

Fiz apenas uma breve investigação e encontrei o mesmo comentário em outro site, já com um nome diferente: 


Neste, chama a atenção que a pessoa que escreveu, fez questão de errar também o nome, ou seja, será uma estratégia de "fazer-se de pobre miserável"?

Talvez, mas vejo os mendigos de rua com seus cartazinhos feitos em papelão de caixa muito mais bem escritos, com erros ocasionais, ok, mas com frases compreensíveis, tipo: "Fome. Ajude um desempregado pai de 5 filhos". 

Bem, nesta de buscar a mensagem mendicante, vi que a BBC escreveu um artigo sobre a mendicância pela internet. E a frequência com que isso mascara golpes: 
'Estou passando fome, faz um Pix': como pedidos de doação se multiplicaram nas redes sociais

A matéria enfatiza que "A análise de mais de 1,5 mil tuítes de 181 usuários que pediram doações via Pix num período de 15 dias em julho deste ano revelou que ao menos 4% dos perfis e 10% das postagens tinham "alta probabilidade de comportamento automatizado". Ou seja, muito provavelmente, são robôs programados para pedir doações nas redes." 

Lógico que, pela análise, percebemos que a maioria dos pedidos mendicantes pela internet são reais. Só que para ser bem sucedido, um pedido desses deve viralizar e viralizar é algo que não acontece com todo mundo, logo, nem todo mundo que mendiga pela internet consegue bons resultados. 

Já quem mendiga no mundo real, semáforos e afins, até que consegue uma grana, de moedinha em moedinha, paga seu aluguel, compra sua comida, fralda para os filhos, já ouvi vários casos. A moda de mendigar na rua é vender paçoca contando uma historinha triste. Tem até mendicante empreendedor. Ele inova: vende paçoca com um texto diferente. Algo do tipo: não estou pedindo o peixe, estou usando a vara (prá se ver que o empreendedorismo, ou melhor "empreendedorismo" também virou modinha. Sobre isso talvez eu fale em outro post. Ou talvez não. Só se me der vontade.) 

Claro que tem os mendicantes golpistas e já me deparei com alguns. Um texto muito bom, ensaiado, mas a memória curta. Porque quando vem até você e você já viu aquela figura pedindo e dizendo que morava em um lugar e tinha tantos filhos e um problema na perna e dois anos depois, o discurso é o mesmo, mas a doença e os personagens são diferentes, você fica na desconfiança. 

Uma delas comecei a chamar de a eterna grávida: "Tô grávida de quatro meses, tenho doença autoimune e preciso de dinheiro para comer.". Oito meses depois: "Tô grávida de quatro meses, tenho doença autoimune e preciso de dinheiro para comer.". Dois anos depois: "Tô grávida de quatro meses, tenho doença autoimune e preciso de dinheiro para comer." Até que vi a pessoa comprando droga na esquina do lugar onde costumava pedir. A barriga tava sempre lá, ela não tinha filhos e mendigava para comprar drogas. 

E pela internet, você só vê o que o mendicante quer mostrar. E pode ser que não seja real, quem vai saber. Joãozinho é meu filho de quatro anos e tem uma doença raríssima que precisa de uma cirurgia urgente que custa 600 mil reais. A foto do Joãozinho é comovente. Três anos depois, a corrente ainda circula: ajudem o Joãozinho, tem quatro anos, uma doença rara, precisa de uma cirurgia urgente. A mesma foto comovente. Aí você se pergunta: Joãozinho está na Terra do Nunca? Nunca cresce?

Olha, não estou dizendo para não ajudar, não doar, não ter compaixão. Estou alertando para quem se comove: pesquise os antecedentes. Vai atrás da informação correta, das fontes reais. Se interessa, vai conhecer. Não cai naquela falácia de doar não importa a quem. Importa sim! Porque você pode escolher ajudar alguém que realmente precisa. Eu sempre recomendo procurar ONGs para doar. Porque elas conseguem ser abrangentes, ter transparência e idoneidade. A ONG certa faz um trabalho que se multiplica por muitas pessoas, enquanto que ajudar uma só pessoa pode ser só assistencialismo. 

Hoje existem plataformas de vaquinha online, onde as pessoas podem criar uma campanha para arrecadar doações. Mas elas também precisam de divulgação e se não viralizarem, não arrecadam grande coisa. E também há fraudes nestas vaquinhas, há pessoas que criam vaquinhas com justificativas estranhas (vide caso Bel Pesce), enfim, há humanos e humanos. 



domingo, 12 de maio de 2024

Bizarrices do desastre no Rio Grande do Sul

Depois de acompanhar muitos desastres e analisar a atuação dos órgãos de resposta e principalmente os de comunicação, certas coisas passam a ser tão repetitivas que ficam irritantes. E agora, com esse grande desastre no Rio Grande do Sul, com as chuvas que causaram enchentes, enxurradas, inundações e deslizamentos, às vezes dá vontade de distribuir marretadas de conhecimento, para cessar a ignorância alheia. 

Vou listar: 

1. Sempre tem oportunistas no desastre

Políticos, influenciadores digitais, empresas privadas, até mesmo acadêmicos oportunistas, veja bem! Nunca se interessaram por defesa civil e de repente são solidários e começam a falar em prevenção, reproduzir uma palavra aqui, outra lá de defesa civil e com toda a cara de pau do mundo, posar de herói. 

O principal objetivo dos oportunistas é posar de herói, pois de acordo com o manual do marketing, o mito do herói ainda está em alta. Se emocionam, disponibilizam seu pix para receber doações, enchem um caminhão com doações e uma equipe bem preparada de vídeo e fazem aquela cena para se promover no sofrimento alheio. 

Vide: Pablo Marçal, o próprio governador do RS, aquela prefeita do RS fazendo vídeos na chuva, Esperidião Amin, Astronauta Pontes e Sérgio Moro naquela PL ridícula que mostra que nenhum deles conhece a legislação já existente. E muitos outros fulanos que fizeram posts e stories. A incompetência no desastre aparece na ação destes oportunistas. 


2. Toneladas de doações inúteis

Um grande erro é doar qualquer coisa, porque "eles não têm nada". Aí chega calçado sem par, sem sola, sem cadarço, velho, fedido e sujo. Roupa de cama com sarna, colchão mofado, roupa velha, rasgada, suja. Comida vencida, vide Coca Cola, Tyrol. Comida inútil: Danone (como vai distribuir um caminhão de iogurte, que precisa de refrigeração em uma área que mal tem energia elétrica para o básico?). Essas empresas só doam para abater do imposto de renda, por isso enviam qualquer porcaria. 

Doação não é descarte! Mas na hora de posar de herói, a foto não registra isso. 


3. Acadêmicos com propostas mirabolantes e "inovadoras"

Ah, o ego acadêmico é algo a ser estudado. Uma certa professora da UFSC, pesquisadora de governança, nunca pesquisou desastres na vida, aí, de repente apresentou a governança como a solução de todos os problemas da Defesa Civil. Um pouquinho de realidade nesta mente esquizofrênica, né? 

Nesta hora, os agentes de Defesa Civil levantam aquela sobrancelha e só lamentam, porque a pessoa ainda insiste que seu modelo é universal. Nesta onda, vi muito projeto de banheiro seco ganhar premiozinhos de sustentabilidade, porque implantam na comunidade X e olha só, funciona? Só que funciona por alguns meses, até a comunidade sacar que terá de fazer ela própria o manejo da merda toda. Aí, abandonam o banheiro seco. 

Foi sustentável? Não. Foi útil? Não. Virou lixo muito cedo? Sim. Assim como muitos projetos de acadêmicos iludidos e esquizofrênicos. 


4. Vou pegar um bote e ir lá salvar as pessoas

Quando precisa, você tem que ajudar. Mas se você não sabe o que fazer, não faça nada. Esta é uma regra básica de primeiros socorros. Primeiro você cuida de si, depois cuida do outro. É a fala da comissária de bordo no avião: primeiro coloque a máscara em si, depois no outro. Porque se você não cuidar de si, vai se expôr ao risco e vai virar mais um precisando de ajuda. 

Aí, aqueles fulanos comentando nos posts: "cadê os empresários que têm helicópteros para resgatar estas pessoas?" Tipo... oi? Desde quando um piloto comercial virou resgatista? Ele não tem treinamento, nem equipamento, vai só se expôr ao risco, arriscar a vida dos que precisam de ajuda e pode ainda atrapalhar as equipes verdadeiras de resgate. 

VIDE: Luciano Hang e vários outros que não me dei ao trabalho de ver. 


5. A cobertura da imprensa explorando a emoção 

Eu tenho uma palavra para isso: lamentável. William Bonner de camiseta preta à lá Zielenski, entrevistando o governador gaúcho, Eduardo, com camiseta branca, à lá Zielenski, falando baboseiras sem fim, como se estivessem em campanha política. Anos de incompetência e descaso com a defesa civil não é o assunto porque isso é falta de empatia com a dor do momento. Foi o que o governador respondeu ao André Trigueiro, um jornalista muito melhor que Bonner, ao ser perguntado sobre as políticas de prevenção. 

Falta de empatia, caro governador, é sua incompetência em estruturar a defesa civil. Falta de empatia é botar a culpa nas chuvas, como todo incompetente se vitimizando e jogando a responsabilidade para um fator externo. Falta de empatia é sua cara de pau de posar de herói falando besteiras sobre meio ambiente e zero entendimento de defesa civil. 

E Fantástico, que patético aquele texto narrando o desastre, "a água como vilão da história". Ora, francamente, vão estudar desastres! 


São tantas as bizarrices do desastre no RS que nem quero continuar daqui. Este assunto me deprime. 


sábado, 11 de maio de 2024

Cada um tem o umbigo que merece

 Tem uma coisa no ser humano que se você observar, vai começar a perceber e vai achar patético. 

Ah, sim, os seres humanos são muito patéticos. 

Porque eles se acham o umbigo do mundo. Sempre pensam que todos estão olhando para ele, sabendo o que eles sabem, agindo como se soubessem quem ele é e o que faz, como se fossem a pessoa mais importante do universo. 

Comecei a notar isso em um retiro de silêncio. Eu observava as pessoas, mas não no grau de interesse de saber o que estavam fazendo, mas com interesse em conhecer quem eram pelos gestos, pelo que fazem quando não podem falar e quando ninguém está olhando. 

Só que quando começaram a falar no final do retiro, percebi que várias pessoas achavam que estavam sendo observadas o tempo todo. Que os outros sabiam o que elas estavam fazendo. A princípio, achei aquilo curioso. Eu me sentia muito à vontade, não via olhares sobre mim. Depois, fiquei preocupada, será que observam mesmo? 

Então, percebi que a maioria não está nem ligando para o que os outros fazem ou como se parecem, mas acham que estão sendo observadas. 

E em minha mente criei a teoria do umbiguismo. Obviamente deve haver estudos psicológicos de comportamento neste sentido. Mas eu apenas guardei a teoria para mim, não pesquisei sobre isso em profundidade. Sei que o processo narcísico é importante para o crescimento, mas nunca tinha pensado no narcisista em cada um de nós mantém na vida adulta em graus variados. 

E então, certo dia ouvindo a palestra de um lama, ele narrou sobre um outro lama que apesar de seu enorme conhecimento e anos de monastério, quando o Dalai Lama visitava o mosteiro, mesmo sendo amigo pessoal dele e convidado a ficar ao seu lado, no alto, onde os palestrantes ficam, ele se recusava. Ficava lá fora, junto com os leigos, longe dos holofotes. 

Não era um ato de esnobar a hierarquia, o poder, nem mesmo era um ato de humildade. Ao ser perguntado porque não ia para o lado do Dalai Lama, o outro lama respondeu o seguinte: eu conheço meus defeitos. Sei que se estiver lá, ao lado de importantes figuras, vou me preocupar com que as pessoas pensam de mim ali. E enquanto não domar essa vaidade, não posso sucumbir a ela. 

A maioria dos humanos não tem esse nível de esclarecimento e autoconsciência. São vaidosas e quando se dão conta disso, ficam ainda mais vaidosas, entram numa onda de auto-empoderamento baseado apenas em imagem. 

Isso não seria problema se não toldasse os olhos das pessoas para o que verdadeiramente importa. O umbiguismo julga: isso se parece comigo, gosto; aquilo não se parece, não gosto. 

Criamos bolhas e permanecemos dentro delas, com os olhos fechados, dentro de nossas ilusões. Alguns vão dizer que é Matrix, mas Matrix é apenas arranhar a superfície. A cobertura de Nutella da realidade. Porque dentro da Matrix tem um outro sistema umbiguista, não é um sistema liberto de vaidades. 

O libertar-se de vaidades não é aquilo que muitos afirmam: "Sou assim, não me importo com o que os outros pensam". Porque quando a pessoa afirma "Sou assim", ela já está mostrando sua vaidade. E o não umbiguismo seria: Não sou nada. 

Ontem, discuti com uma cientista com a mente fechada. Tentou me ofender, dizendo que meu conhecimento não era válido, que eu não havia entendido um determinado conceito, porque discordei de sua ideia sobre os limites daquele conceito. Disse a ela que havia os limite do conceito, por isso ele não era aplicado universalmente como ela imaginava. 

Ela não quis nem refletir sobre isso. Do alto de sua arrogância, disse que seu campo de pesquisa resolveria todos os problemas da minha pesquisa. Só que ela nem sabia o que eu pesquisava. Imaginou, se iludiu, mente fechada, não curiosa, cheia de julgamentos e achismos, não quis nem saber. 

Em certo momento, ela achou que encerraria a conversa dizendo que eu não deveria estar em tal grupo, pois não entenderia o que discutiriam lá. Eu, que nunca tive a intenção de participar de tal grupo, disse simplesmente que ela tivesse respeito pelo campo de pesquisa que estava adentrando e que não era área dela. Que mantivesse a mente aberta para perceber os limites de sua própria área, ao tentar a conexão com um campo que não dominava. 

E disse que havia observado sua comunicação desde o princípio, desrespeitosa, cheia de achismos e julgamentos e que não era esta a postura que eu esperava de um par científico. A ciência não tem espaço para achismos. 

Com certeza, não tenho nem a intenção de mudar a ideia dela sobre nada. Não tenho essa ilusão. Quer ampliar seu horizonte, venha com a mente aberta. Não quer, fique aí, nas suas ilusões e não atrapalhe. 

Ninguém muda ninguém, ninguém observa ninguém. A maioria das pessoas não dá a mínima para as outras, mesmo que pensem estar sendo observadas por serem muito importantes. 

E todo mundo tem o umbigo que merece. 


quarta-feira, 1 de maio de 2024

A ilusão de que trabalho enriquece

Estava analisando uma entrevista em que, dado momento, o entrevistado, um senhor distinto, militar, conservador, com linguajar simples, porém com arroubos de sofisticação se refere a um assassino que matou criança em uma creche como "aquele marginal". 

Então, passado o trabalho de análise, "aquele marginal" não saiu da minha cabeça. O sujeito, branco, militar, cargo importante, influente politicamente e em suas bolhas sociais já tinha se referido anteriormente à questão indígena com um discreto desprezo. E "aquele marginal" confirmou que seu verniz de pessoa importante era só a fachada do que representa uma boa parcela do povo, brasileiro ou não: 

garanto meus privilégios e os da minha bolha social, o resto é "aquele marginal". 

Indígena não compra imóveis, só pede suas terras de volta, então são "aquele marginal". Favelados, descendentes de escravizados não compram imóveis, então são "aquele marginal". 

Mas o mais interessante é que "aquele marginal", o assassino de crianças na creche era branco, vindo de uma família estruturada, pessoa de bem. 

Talvez nazista, talvez psicótico, com acesso pela internet a bolhas bem específicas de muito ódio, querendo cobrar de crianças brancas no alto do privilégio de sua creche porque não tinham mais direito a uma creche de brancos com a hora do soninho, em vez do trabalho assalariado que, segundo prometeram, traria a riqueza e o poder. 

Enfim, "aquele marginal" é qualquer pessoa de bem que metida em uma bolha alucina que o mundo está contra ele. Pode ser você, pode ser eu, pode ser qualquer fulano neste mundo. 

Tem um estudo baseado no Experimento de Aprisionamento de Stanford, que mostra que não é preciso muito estímulo ou muita realidade para uma pessoa "de bem" virar um maníaco assassino. Basta se perder em sua bolha. 

E como seres humanos, sempre fomos bolhosos, não é prerrogativa da sociedade atual. Seja menos humanos! Transite entre bolhas, estoure a sua, perceba como ela se move. E não se faça superior por isso, porque você vai perder sua humanidade: deixará de pertencer, de ser bairrista, de usar a mesma linguagem e mesmos argumentos dos outros. Vai ser o diferentão. 

Mas perdendo sua humanidade, você ganha toda a natureza que está fora da bolha. É mais ampla, é mais sábia, é mais livre. Poucos aguentam, se você não tem coragem, nem tente. 



Manezinho, povo mesquinho

 Minha rima é válida, porque é real. Basta ver um velho morrer no Ribeirão da Ilha pra já notar a mesquinheza do povo manezinho, esse que nasce na ilha de Santa Catarina, Florianópolis, para os menos chegados. 

O defunto mal esfriou, às vezes o passante nem morreu, e lá vão os parentes procurar saber o que vão ter de herança. Nunca vi povo mais mesquinho nas minhas andanças pelo Brasil. Enriquecem à custa de herança, se desentendem por herança, matam por herança. 

Trabalhar que é bom, aí é difícil, porque manezinho bom é manezinho preguiçoso. Reclama de tudo. A tainha alheia é sempre maior. Os turistas infestam nossas praias, mas vamos aumentar o valor dos aluguéis pra explorar o pobre coitado de férias. 200 reais um prato de peixe numa dessas vias gastronômicas. Vamos vender os terrenos invadidos e herdados para construir condomínio e ah, plano diretor, preservar a mata pra quê? 

É, se fosse pelos manezinhos, a ilha de Floripa já teria virado a Ilha de Páscoa, inerte, sem vida, sem árvores, só com ilhéus "típicos" pra cobrar caro numa tainha xôxa e num hotel de besta. O atendimento ao cliente tão ruim que o cliente quase pede desculpa por comprar. 

Esse é o manezinho. 

Ah, mas você só foca na negatividade, deve ter coisa boa. Coisa boa só quando o manezinho vai embora da ilha. Porque daí, pode ser que ele tenha um choque cultural e comece a enxergar sua pequeneza diante do mundo e ser menos mesquinho. 

Pois é, só que isso não acontece. Não com o manezinho. Olha bem, Floripa é um paraíso. Minha tainha vai ser sempre melhor que qualquer peixe metido a besta. 

Então, é isso, não tem coisa boa. Nem manezinho morto é manezinho bom, porque os parentes, os mesmos que querem só a herança do defunto, só falam mal da criatura. 

Eles dão um jeito de se autodestruírem.