
terça-feira, 20 de agosto de 2024
Dramas adolescentes, TV, séries e animes inclassificáveis

domingo, 18 de agosto de 2024
Como a humanidade está emburrecendo com coisas como a cultura do cancelamento
Quem já viu o filme Idiocracia ou a série brasileira A Eleita, tem que concordar comigo: a humanidade está emburrecendo velozmente. E dá medo disso, quando as evidências científicas mostram que, pela primeira vez na História, o QI da nova geração é mais baixo que o da geração anterior.
Sentados à beira do abismo, sem nem perceber, enquanto se movem como manadas de bois, manipulados por telas brilhantes. As pessoas não querem gastar energia pensando nem um pouquinho. Aceitam sem questionar a opinião, fatos falsos, o cancelamento, linchamento moral de pessoas, a candidatura de pessoas estúpidas e mal intencionadas a cargos públicos. Acreditam mais na tiazinha do Zapzap que na ciência. É muita burrice circulando.Cultura do Cancelamento
sábado, 17 de agosto de 2024
A risada do desespero
E ela me fez rir.
Porque é verdade. É real. Porque o que vivemos é a confusão caótica da segunda linha "The Reality as it actually happened". O doutorado é isso. Esse caos infinito, confuso e estressante, do qual 75% dos estudantes sucumbirão a alguma doença mental.
Mas na hora de defender diante da banca, relatamos apenas o que os critérios exigem, ou seja comunicamos a primeira linha "The Reality as we communicated". Engolimos o choro, o desespero, o caos mental, os remédios, as horas de terapia, a falta de grana, as bolsas defasadas, a falta de um bom plano de saúde, a insônia, os pesadelos, as doenças somáticas, a dúvida, principalmente a dúvida de que conseguimos, e tantas outras coisas.
E mostramos um cronograma hipócrita exibindo a jornada acadêmica como a comunicamos, não como a vivemos.
Ora, vamos lá, assumam que somos o caos! Porra, banca, acorda e pelo menos leiam toda a nossa tese! Facilitem a marcação da data. Sejam claros e objetivos na avaliação. Se concentrem no conteúdo, não nos erros de português que serão corrigidos por um revisor depois! E pelo menos, pelo menos, não nos olhem com aquele olhar de "do que você está falando?", quando você estiver lá na frente contando sobre como chegou até ali, a realidade.
Todos os acadêmicos passam por isso. E se têm a incrível capacidade de não passar, deveriam ter um mínimo de empatia pela maioria que passa. E se passou e não tem empatia, vai procurar uma terapia!
Sim. A risada do desespero é um desabafo. Porque é um sistema esmagador, cruel e que ignora a dor das pessoas. Mas pior que ignorar é não fornecer ferramentas para melhorar esse sistema.
Como diz o sábio Frejat: "que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero".
quinta-feira, 15 de agosto de 2024
Você acha que a pandemia fodeu com a sua vida?
É uma pergunta retórica para a maioria das pessoas, com certeza. Porque sim, a pandemia fodeu com vidas. Algumas, literalmente, outra, metaforicamente. Com a minha, fodeu de uma forma estranha.
Porque não posso considerar uma foda ruim. Em 2020, eu comecei fazendo uma cirurgia e tive de prolongar minha licença médica do trabalho por mais um mês. Quando retornei, estava decidida a me demitir. Mas, tive a sorte de a minha demissão sair no dia em que voltei, em fevereiro. Tudo estava dando muito mais certo do que eu tinha planejado. A princípio, eu pediria demissão e não receberia indenização, nem o seguro desemprego, nem poderia tocar no meu FGTS.
Mas como a demissão foi decisão da empresa, todos os benefícios estavam liberados. E para completar minha maré de boa sorte, consegui pegar uma concorrida bolsa de doutorado no mesmo mês! Me mudei para perto da universidade e estava desfazendo caixas de mudança, quando recebi a mensagem derradeira.
Março de 2020. A pandemia tinha chegado arrombando a porta da nossa realidade. E a universidade fecharia por tempo indeterminado.
Um mês, pensei, e tudo volta ao normal. Até gostei do mês de férias, pois tinha comprado um curso e queria muito estudar aquilo tudo. Fui morar com o namorado e os meses foram passando. Depois de cinco meses morando com ele, conversamos: era hora de oficializar. Entreguei meu apartamento perto da universidade, no qual eu havia morado por apenas duas semanas, e decidimos nos casar no final de outubro.
Home Office, casamento, uma linda casa na floresta, até adotei um cachorro. Quem gostaria de mais no meio da pandemia?
Não foi ruim. Mas então, a pandemia acabou. Com o fim da pandemia, senti falta do trabalho presencial, das atividades presenciais, de andar pela rua à noite, nos bairros movimentados onde eu morava. Ver gente, frequentar lugares diferentes, academia antes do trabalho. Acordar cedo.
Nada voltou ao normal.
Não tem essa história de novo normal, tudo parece virado do avesso. E só reparei bem agora, quatro anos e meio depois que a pandemia alterou meus planos.
Parece que minha vida parou naquele mês de março de 2020 e nunca mais voltou ao "normal".
quinta-feira, 8 de agosto de 2024
O que penso sobre o mundo e o absurdo de achar que alguém se importa
Esta história que vou contar ocorreu faz uns anos. Na época, eu trabalhava em uma empresa de educação à distância que tinha em seus quadros, espaço para a contratação de estagiários. Para quem caminha no ingênuo universo da ilusão, saiba que estagiário é o nome que se dá a um cargo para alguém que tope fazer os trabalhos mais chatos e repetitivos, que qualquer idiota sabe fazer, com o menor salário que a empresa pode pagar, sem nenhum ônus, vulgo CLT.
Eles são selecionados de forma simples, pois não se espera que tenham experiência, apenas boa vontade. Uma leitura básica no currículo, confirmar sua matrícula na universidade, uma entrevista para checar se a pessoa está mesmo a fim de trabalhar e pronto, a vaga é do estagiário.
Por este motivo, volta e meia apareciam uns estagiários incrivelmente burros, mas esperto o suficiente para enganar a mocinha igualmente burra do RH, com as respostas certas para as perguntas estúpidas que ela faz.
E a história que conto é com um desses estagiários. Ele não era da minha equipe, felizmente, mas como era da equipe que trabalhava de frente à minha na sala, acompanhei o drama muito de perto.
O nome, não me lembro. A universidade dele, lembro apenas que era uma dessas Uniqualquercoisaondeentraqualquerum. E botei reparo em sua figura quando na primeira semana de trabalho dele, interrompeu uma reunião minha com uma colega sênior para oferecer um livro.
Era um livro escrito por ele. Entregou com um sorriso confiante, dizendo que era da Academia Seiládaonde de Letras. Lembro-me de conter minha primeira impressão desta abordagem:
"Que coragem" - pensei. "Interromper uma reunião de seniores e entregar um livro escrito por ele. Um garoto de 19 anos".
Ao ler o título do livro, lutei ainda mais para conter minha impressão dentro de minha mente. Não me lembro exatamente o título, mas era algo como:
"O que penso sobre o mundo".
Felizmente, minha colega sênior o respondeu amavelmente e ele saiu, deixando-nos a sós para continuar a reunião. Quando terminamos, voltei para meu trabalho e ao concluir o expediente, peguei o livro. Folheei e fui ao que me interessava: que editora toparia publicar um livro de um garoto de 19 anos com um título pretensioso destes?
A resposta veio rápida: nenhuma.
O livro não tinha editora, nem ficha catalográfica. Parecia algo feito de forma independente. Você escreve, diagrama, faz a capa, manda publicar, paga tudo e distribui. Pronto. Assim nascem os livros independentes de garotos achistas de 19 anos que pensam que o que pensam sobre o mundo interessa a alguém.
Mas, tudo bem. Eu não ia julgar o livro só pela capa. Comecei a ler.
Parei.
Continuei.
Parei.
Olhei para o livro, interrogativamente e reforcei minha primeira impressão:
"Ele é muito mais corajoso do que eu tinha pensado inicialmente, porque o livro é uma completa bosta".
Não perdi meu tempo lendo mais, deixei o livro ali, pois não merecia nem esbarrar na minha estante. Na semana seguinte, alguns comentários chegaram de colegas que tinha lido o tal do livro. Ninguém quis dizer em voz alta, claro, para não ferir os sentimentos do garoto, mas aos cochichos, a impressão de bosta era unânime.
O livro merecia o prêmio de bosta.
Eu não tinha dado mais atenção ao fato, tenho muita consciência de utilizar bem meu tempo, mas alguns colegas insistiam em comentar e eu então peguei o livro mais uma vez. Fui checar os antecedentes do garoto.
Descobri que ele tinha se candidatado a uma Academia Seiládaonde de Letras, mas fora recusado. O pai era militar e tinha bancado o livro, talvez pensando em alavancar a carreira do garoto. Mas, com certeza, sem nunca ter lido o que ele escreveu. Qualquer um que lesse, concordaria que queimar todas as edições era o melhor a ser feito pela carreira do garoto.
Pobres criaturas que crescem sem um feedback realista de seu trabalho...
Porque o pior não era o livro. Era que o garoto era tão ruim trabalhando que durou apenas dois meses. E não era só ruim no trabalho, era péssimo em se relacionar com os colegas. Cantou todas as garotas. usava o chat de trabalho para isso. Encarou tanto uma estagiária minha que ela pediu para trocar de lugar.
Recebeu quatro chances de ficar, feedbacks precisos e realistas dados por pessoas da área de educação e pedagogia. Quatro pessoas foram destacadas para ajudá-lo. Mas ele não aprendia o que fazer. Não conseguia entender nem o básico. Não aprendia nada, de forma alguma, mesmo mudando o tutor.
Talvez fosse o QI, talvez fosse uma doença mental, mas com certeza era a ausência de uma postura realista em relação ao mundo. Apesar de todos os feedbacks, o rapaz era invariavelmente confiante e vaidoso, de uma forma que beirava ao narcisismo psicótico. Incapaz de uma autocrítica, incapaz de aprender com seus erros, pois acreditava ingenuamente que apenas acertava.
Acreditava que o que pensava sobre o mundo era tão formidável que merecia ocupar as páginas de um livro.
Pobre criatura, poupada de sua própria ignorância. E por isso, condenado a ser eternamente ignorante.
sábado, 3 de agosto de 2024
Ansiedade e os olhos dos outros
Faz um tempo, descobri que tenho uma condição neurotípica, Espectro Autista, para quem está familiarizado. Grau 1, o mais leve. Significa que consigo disfarçar razoavelmente bem, a ponto de dificultar o diagnóstico por muitos anos.
Imagem de Alexander Antropov por PixabayDepois de descobri isso, comecei a perceber que a ansiedade que sinto ao conviver com humanos não é normal. E que minhas "birras" na infância que ocorriam quando eu não queria socializar não eram birras, era ansiedade. Que os tiques de corpo que tenho desde a infância e muitas vezes me constrangem, até hoje, tem um nome. E que sentir agonia com roupas apertadas, que envolvem o pescoço, ou que tem texturas específicas, não é motivo de autocensura.
Enfim, várias outras características depois, descobri-me não tão estranha quanto muitos apontavam, mas uma pessoa absolutamente normal, com um diagnóstico que não exatamente significa a cura, mas uma adaptação mais eficaz. Não assumo para ninguém que sou Autista, pois as pessoas hoje acham que um diagnóstico é uma identidade e eu acho isso ridículo.
Mas descobrir-me Autista me deixou mais confortável com minhas esquisitices e me deixou mais alerta para minha ansiedade. Por que me deixou mais alerta? Porque eu aprendi a disfarçar muito bem ao longo do tempo. As pessoas olham para mim e me veem como um poço de tranquilidade. Aprendi a modular a voz, treinei para falar como os melhores locutores e narradores. Desde criança, eu imitava a fala deles, fiz aulas de canto, fono e teatro, e assim, fui aprendendo a modular a voz de forma que ninguém que me ouça discursar sequer cogite que sou autista.
Tenho boas expressões faciais e aprendi a sorrir largo, espremendo os olhos, pois assim é considerado o sorriso sincero. Foram muitas sessões de autocrítica para chegar neste nível de masking.
Fiz balé para moderar os movimentos bruscos e caminhar de forma mais elegante e equilibrada. Fiz muitas aulas de tudo o que você consiga imaginar, para aprender a ser mais normal, como um humano normal. Minha maior dificuldade sempre foram os relacionamentos. É muito cansativo ter amigos, comparecer aos eventos que formam a amizade, cultivar o grupo. Tudo isso exige muita energia. Mas eu queria me relacionar, sempre careci de bons amigos.
E sempre quis me desafiar. Sempre busquei fazer algo diferente. Eu tenho muitas zonas de conforto, mas me acostumei tanto a andar no desconfortável, que não me importava de me desafiar um pouco mais.
Nunca tive a compreensão de um diagnóstico precoce. Desde criança, eu tive de me adaptar para não ficar de castigo, para não chatear as pessoas, para não ficar de lado dos grupos de brincadeiras, para não "ficar atrás" da irmã normal que socializava bem com todo mundo, para não parecer a pessoa esquisita do grupo. Para fingir que estava tudo bem e tirar o foco de mim, porque tudo o que eu queria era que me deixassem em paz, que respeitassem o meu espaço.
Mas, você se acostuma a ter seu espaço desrespeitado. Você se acostuma a se fechar na sua mente, o único lugar que ninguém pode invadir. Pelo menos não quando você escolhe se fechar. E eu aprendi a me fechar para me proteger. Aprendi a transparecer calma e tranquilidade, quando eu só queria explodir. Quando eu só queria sair dali correndo e me isolar de tudo.
Aprendi a mascarar tão bem que quase acreditei que era uma pessoa tranquila e relaxada. Em alguns momentos da minha vida, eu realmente me senti assim. Poucos, mas bons momentos. Mas então, a natureza inquieta da mente autista retornava, os tiques ressurgiam mais fortes, como se gritassem atenção, depois de um período de negligência.
E tudo voltava. Ansiedade no topo, tiques no topo, estereotipias e dificuldades em manter os relacionamentos.
Neste momento estou em um topo particularmente difícil. Sinto vontade de fugir e me esconder, mas a pressão do que devo concluir não me deixa em paz. Quero concluir, mas já não tenho mais força, nem energia.
A mera noção dos olhos dos outros me faz perder o ritmo da respiração, faltar ar. A pressão embutida na mente desde a infância de que devo parecer normal, se tornou exaustiva.
A pressão dos olhos dos outros se tornou um peso tão grande! E desde sempre me esforcei para fugir dos olhos dos outros. Mesmo assim, eles me perseguem. Enquanto eu quiser viver em meio aos humanos normais. Enquanto eu quiser me camuflar e participar. Enquanto eu quiser ter relacionamento e não me sentir só, devo me adaptar aos olhos dos outros.
Mas por que algo que seria bom, como um relacionamento, se torna tão exaustivo para um autista? Por que não posso ter as duas coisas? A solidão compreensiva de mim comigo e um relacionamento companheiro e feliz?
Estas são perguntas que aparecem nos momentos de crise, em que a ansiedade dói, literalmente, no corpo. Tem resposta? Não sei. Por enquanto, sei apenas que estou caminhando lentamente para o buraco. E posso apenas fazer duas coisas: cair de uma vez ou buscar ajuda externa para me afastar do buraco.
No ritmo em que estou, a queda é inevitável, mas talvez demore ainda um tanto e vai prolongar esse sofrimento. Então, me resta a ajuda externa.
Nunca confiei em médicos. Vou até eles. Mas nunca confio neles. São limitados e carentes de autoridade. Psiquiatras, neurologistas, endócrinos, etc... Os mais carentes são os dermatologistas. Patéticos.
E terapeutas? Os piores! Psicólogos, todos os que conheci, completamente desequilibrados. Nada confiáveis, lentos em entender, torpes em sua lentidão, com julgamentos prontos, presos a seus preconceitos freudianos, jungianos, gestaltianos, etc...
Mesmo assim, às vezes, os procuro, mesmo sem confiar. Vou até eles com uma lista. Recito a lista, direciono seus achismos, pois descobri que assim os odeio menos. Já chego dizendo que tenho uma lista. E assim, tomo seus remédios, úteis apenas para os sintomas, nunca para a causa.
A causa, meus queridos, está lá dentro, ninguém nunca saberá, a não ser você mesmo. Desde cedo, percebi que ninguém podia me ajudar, a não ser eu. Que o conhecimento era muito útil e continuar aprendendo me tornaria menos infeliz. Mas que há certas coisas que não adianta o quanto se tente, não estamos no ponto para aprender.
Que ajuda externa é bom, mas apenas em momentos pontuais. Depender demais disso é burrice, dependência, vício, carência afetiva mal resolvida.
Que depender dos outros é a pior coisa que você pode fazer por si mesmo. Mas você não é a pessoa mais inteligente do universo, então, se liga que o buraco está sempre a um passo seu para seu próprio umbigo.
Que por mais que eu sofra, não vou desistir de continuar me adaptando. Pois não quero ser um arbusto, uma moita de bambu no meio da tempestade. Quero me levantar e sair andando quando eu quiser, para onde bem entender.
Autismo não é identidade, é uma condição limitante. O que faço é entender esses limites e ir tateando até expandi-los, às vezes com carinho, às vezes na porrada mesmo. Porque toda condição existe para ensinar, não para se acomodar nela.
quinta-feira, 18 de julho de 2024
Liberdade é mesmo uma boa coisa?
Ouvi a história de um monge Budista que vivia entre a China e o Tibet e certa vez, ele se despediu de seus discípulos, pois ia fazer um retiro solitário nas montanhas. Quando os monges budistas resolvem fazer retiros solitários, eles não sabem quando e se voltarão, pode durar meses, anos, décadas, ninguém sabe.
Então, ele se despediu e foi. E alguns discípulos se dispuseram a levar alimentos de vez em quando, até o local onde ele ficaria. Ocorre que bem no período em que ele estava na montanha, eclodiu um conflito e ele foi pego pelo país vizinho e colocado injustamente em uma prisão.
O monge não falava a língua dos vizinhos, então nem mesmo conseguiu explicar que estava por ali por motivos espirituais e permaneceu preso, sumariamente. Os discípulos que ficaram de levar alimento, não o encontraram mais e pensaram que o monge havia sido morto no conflito.
Passaram-se três anos, em que o monge esteve preso em uma pequena cela, simples, solitário. Os guardas levavam alimento a ele e o monge seguia sua rotina diária: fazer suas orações, comer, dormir, sentar-se para meditar por horas a fio. Até que um dia, o conflito cessou e mandaram soltar o monge. Só que quando abriram a cela, o monge lá permaneceu, meditando.
Os guardas estranharam. Achavam que como não falava sua língua, o monge não estava entendendo que estava livre. Pegaram o monge e o levaram para fora. O monge agradeceu e retornou a sua cela. Várias vezes, os guardas o conduziram para fora, mas o monge retornava todas as vezes para sua cela.
Até que os guardas perceberam que o monge apenas queria continuar seu retiro.
Ocorre que para o monge, ter sido preso injustamente, recolhido a uma pequena cela, alimentado todos os dias de forma simples, com um teto e um lugar para dormir era um grande benefício para seu retiro. Ele se sentia abençoado por terem-no acolhido ali. Não precisava se preocupar com trivialidades como conseguir alimento e cuidar de seu teto. A prisão era o lugar mais perfeito do mundo para fazer seu retiro.
Para o monge a privação da liberdade era sua própria libertação mental.
Compreendendo isso, os guardas deixaram que ele permanecesse ali por mais dois anos, até que o monge deu seu retiro por concluído e se despediu, retornando a seu mosteiro e seus discípulos.
Esta história é verídica. E eu gosto de me lembrar dela quando falamos em liberdade porque o que sabemos da liberdade é uma ilusão que nos leva a decisões estúpidas, cagadas homéricas e preguiça histórica que nos deixa imóveis na merda quentinha e confortável que cultivamos com tanto apego e chamamos de liberdade.
Liberdade para a maioria das pessoas é comer e beber sem limites, assistir porcaria na TV, não ter horário para nada, nem obrigações, ter muito dinheiro e poder para tomar suas decisões sem depender de ninguém. A grande ilusão é que tudo isso só nos leva a sermos mais preguiçosos, ignorantes, gordos, inúteis e dependentes de dinheiro, poder, lazer e diversão. É uma dependência inconsciente, pois as pessoas vão dizer que são livres perseguindo essas coisas. Se não as têm, são livre para perseguir esses "sonhos", ou seus "sonhos de consumo".
Mas dependência não é liberdade.
Não estou dizendo que você pode ser livre se andar por aí nu com a mão no bolso. Não é isso. Tenha seus bens, compre coisas, tudo bem. Mas esteja sempre alerta para o que significa isso. Estou comprando isso porque é necessário, ou porque preenche uma carência afetiva minha? Estou comemorando a sexta por quê? Odeio meu trabalho e o tédio me faz encher a cara o fim de semana todo pela ilusão de liberdade? Meus sonhos são plantados pela ilusão de liberdade?
No fim das contas, a liberdade inventada pela sociedade de consumo só deixa as pessoas mais infelizes e presas, dependentes de padrões forçados, incutidos em suas mentes para não questionarem e continuarem produzindo, consumindo, perseguindo sua pseudo felicidade nisso.
Tá e como fico livre se não é assim e não é nu com a mão no bolso?
É libertando sua mente destes padrões, pequeno Padawan! Não apenas questionando intelectualmente, mas praticando o desapego a essas ideias fracassadas de liberdade e felicidade. É tomando consciência da sua prisão dourada, invisível, porém presente, a cada dia, a cada data de vencimento do cartão de crédito.
É tirando todo o trivial e vivendo apenas a essência da vida, aquilo que ninguém pode te dar, te vender, te mostrar. Mas só você pode encontrar, se for menos seguidor de tendências e mais consciente de suas escolhas.
Tente! É horrível nadar contra a maré de zumbis iludidos. Mas é libertador.
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Verônica Mars matando fadas da conveniência
segunda-feira, 10 de junho de 2024
A capacidade humana de ser uma eterna criança fingindo ser um adulto
Tenho escrito muito aqui sobre comportamento e várias vezes menciono a infantilidade nas relações e comportamentos humanos. Esta é uma constante que, por vezes, negamos que exista em nosso próprio comportamento. Mas está sempre lá.
Porque a criança em nós é o Id. Sabe, da Teoria da Personalidade, descrita por nosso estimado companheiro de insônia e psicanálise, Sigmund Freud. Para resumir esta teoria, o Ego, o Superego e o Id são instâncias que formam a psique humana e vivem brigando entre si.
O Id é a criança que só quer comer, brincar, cagar e prazeres da vida. O Ego é o que vai dar uma controlada no Id para adequá-lo à vida real, que precisa de convívio social, logo, algumas regras. E o Superego é o sábio em nós, tentado mostrar ao Id e ao Ego que existe mais do que necessidades básicas na vida.
Aí, vai umas piadas sobre isso:
O que disse o ego para o id? Não pense apenas em você mesmo!
O que disse o superego ao id? Senta lá, Id!
Por que o ego e o superego nunca saem para a noite? Porque eles são muito egoístas!
Então, voltando para nossa divagação, a eterna criança em nós, esse Id, é quem sempre estraga tudo: os relacionamentos, suas metas, de trabalho, de estudos, de dieta, de qualquer coisa que exija um pouco de esforço. A pessoa com o Id dominante vive querendo apenas que seus desejos sejam atendidos e quando isso não acontece, se frustra como a criança que é. Às vezes isso aparece em formas bem elaboradas, como um mau humor, uma sabotagem, uma vingança. Mas outras vezes, vem em forma de birra, gritaria e raiva descontrolada.
É possível enxergar essas nuances apenas se nós temos uma caminhada de autoobservação. Porque primeiro devemos olhar a coisa em nós, para depois observar nos outros. E claro, aprender a dominá-la nos ajuda a sermos humanos melhores.
Mas, mesmo depois de uma boa dose de dominação do Id, mesmo sendo uma pessoa controlada e bastante Superego, sim, no fundo somos apenas crianças fingindo ser adultos. E quando a gente se pega chutando o balde é porque a criança birrenta, o Id tá no controle. Mas o pior é que a gente raramente se pega chutando o balde, a gente já se pega com o balde chutado e a merda toda feita.
Então, se temos um Superego exigente, ficamos nos cobrando: porque não parei o pé antes de chutar? Mas nosso Ego vem e diz: ok você chutou por motivos nobres. E assim, a briga segue.
No final das contas, na maioria das vezes o Id ganha. A chutação de balde continua, às vezes piora até um extremo, aí vem o Ego dá uma mediada, mas o Id é quem domina o mundo. Porque a gente consegue ver o Id nas ações dessas pessoas poderosas e bizarras, como o Putin, o Trump, Kim Jong-Un, Nicolás Maduro (engraçado, são todos homens!).
A gente consegue ver a carência afetiva imensa dessas pessoas e o quanto precisam dominar, mostrar para o mundo, exibir seu poder, como um menino de oito anos que mostra o pinto para as meninas porque descobriu que isso causa certa comoção.
Lógico que o pinto do menino de oito anos é um simbolismo para o que essas figuras mostram em termos de armas fálicas, obeliscos fálicos, topetes fálicos, bigodes fálicos, várias demonstrações de pintos infantis em obras adultas. Símbolos de adultos mal resolvidos e carentes.
O Id é o que mostra que a humanidade não vai evoluir. Seremos todos eternas crianças birrentas, mostrando as genitálias como forma de chamar a atenção.
sábado, 8 de junho de 2024
Por que os homens traem mais que os cães
Por que sempre brigo com todo mundo - o rato interior de cada um
Ontem, saí com alguns amigos para um rodízio de sopas. Um deles, engenheiro civil, está cuidando de uma obra cujos pedreiros dão muito trabalho, a despeito de seus esforços. E nesta semana, ocorreu uma briga entre dois dos pedreiros. O motivo: ignorância.
A principal vulnerabilidade humana é a ignorância. Ignorar suas emoções, que são o principal condutor de seus pensamentos. As ações que o pedreiro que primeiro atacou tomou foram fruto de ignorar o que realmente ele sente em relação ao outro. Qual é sua necessidade? Dominar? Amar? Quer ser reconhecido? Ou apenas enxerga no outro algo que gostaria de ser e falha miseravelmente, por isso desconta sua frustração nele?
A formação em engenharia falha em muitas coisas, a principal é que ninguém ensina a esses pobres profissionais que terão de ser psicólogos para mediar conflitos na equipe. Que trabalhar com acadêmicos é até fácil, pois eles são razoavelmente menos ignorantes emocionalmente. Mas trabalhar com trabalhadores de escolaridade baixa é extremamente problemático.
É o nível mais baixo da roda dos ratos. Aquele nível em que eles apenas correm, correm e nunca chegam nem na ilusão de que vão chegar, pois são dependentes de seus vícios e paixões. Muitos são literalmente viciados, álcool, drogas, pornô, música ruim com péssimas mensagens (leia-se sertanejo popular e funk pessimista).
Este blog não é nenhum meio de auto ajuda, pelo contrário. Estou aqui para provocar, distribuir tapas na cara, com verdades difíceis de digerir. E iningolíveis.
Então se você é dessas pessoas que briga com todo mundo, esteja bem certo que o problema é todo seu. Você é a pessoa ignorante que implica por um copo de refrigerante, porque não reconhece que sente a necessidade de dominar. É uma criança frustrada que nunca dominou merda nenhuma na própria vida, por isso, esbraveja com todo mundo, culpando deus e o mundo por sua péssima educação e autopercepção.
Se você briga com todo mundo, tenha certeza de que é uma pessoa patética. As pessoas inteligentes olham para você com pena. Você jamais será melhor que um pobre inseto tentando chegar na luz e morrendo ao se deparar com o calor dela. Você nem mesmo está pronto para a luz. Provavelmente a coisa mais perto de melhoria pessoal que vai conseguir será trocar seus vícios em álcool, drogas, pornô e música ruim por uma dessas igrejas evangélicas de brejo, que te oferecem a salvação fácil: basta acreditar e seu deus imaginário, benevolente, porém vingativo.
Claro que existe outro caminho, mas este, uma pessoa ignorante, que briga com todo mundo por mesquinharia não está disposta a alcançar. Porque este caminho significaria abrir mão da fuga confortável dos vícios. Implica sentar-se e ouvir o que tem dentro de si. Entender seu demônios e começar a domá-los um a um.
Ah... este é um processo lento, difícil e doloroso, conhecido como zen.
O quê? Você achou que zen fosse calmo, lindo e tranquilo? Vou puxar seu tapetinho imaginário de conto de fadas. Não é.
E é por isso que nunca tem muita gente praticando, meditando. Porque quando percebe que é dureza, pula fora, vai procurar a paz nutella, o mindfulness, Yoga na prática física, coisas assim que só iludem a mente com uma pseudopaz. Ou as igrejas cristãs com seus salvadores imaginários. Se você gosta de ser a eterna donzela em perigo que precisa de um salvador, seu caminho é este. Iluda-se com seu príncipe.
Agora, se você quer mesmo dominar sua vida e suas emoções e não ser dominado por elas, o caminho é matar seu salvador e salvar a si mesmo. Matar metaforicamente, é claro, num processo de libertar -se desta ideia ilusória de que "alguém tem que me ajudar", "eu sou especial", "sou do povo escolhido".
Essa ideia falsa e aprisionante de que sua vida depende de uma figura externa a você, mais poderosa, mais magnânima e mais inteligente, que vai te pegar pela mãozinha ou te carregar no colo quando você precisar. Isso, que você chama de deus, de guru, a figura da mãe, do pai, do chefe, do governo, do protetor, do salvador, não existe. É só sua imaginação.
Claro que não é porque é sua imaginação que é falso. Pelo contrário. A imaginação é um ativo muito poderoso que os humanos possuem e que pode construir e destruir a si mesmo e ao mundo. E é por isso que devemos entendê-la e dominá-la.
Porque se deixar a imaginação nos dominar, seremos eternamente os ratos correndo na rodinha, esperando chegar a algum lugar indicado por nosso salvador, o príncipe encantado, a mãe, o pai, seu deus, seu guru. Nunca botaremos a cabeça pra fora desta gaiola.
A imaginação é um domínio humano e quando não a controlamos, são as convenções sociais que a controlam, a cultura popular incute imagens na nossa mente e nos tornamos apenas ratos obedientes. E temos até a ilusão de ter liberdade, pois o pão e o circo (leia como sextou, churrasco, álcool, drogas, pornô e música ruim) é permitido aos ratos no fim de semana.
Então, se você quer continuar sendo um rato obediente e frustrado, que briga com todo mundo e acha que é porque a culpa é deles de te encherem o saco, continue correndo infinitamente, sextando obedientemente, alimentando seus vícios como um bom seguidor capitalista do consumo feliz. Continue sua vidinha de rato.
Mas não sei... talvez você queira liberdade de verdade. Dói e é solitário, muitas vezes. Mas depois de algum tempo, a felicidade construída na verdadeira liberdade não morre, não depende de nada externo, é cultivada e mantida dentro de si. E ninguém lhe tira.
A escolha é sua.
domingo, 2 de junho de 2024
A liberdade de ser ninguém na fila do pão
Ainda me lembro de uma figura comum nas tardes de domingo. Chamava-se Faustão e ocupava a grande da TV aberta em um canal bastante popular comum programa popularesco de auditório, Domingão do Faustão. Revelava artistas, tinha grande influência em suas carreiras. Logo, era disputadíssimo e brilhar no palco do programa era deslanchar na carreira.
Isso em anos 1990, 2000, por aí. Depois, o programa foi caindo em desuso pela classe artística que passou a dispor da internet e das mídias sociais para se promover e se autopromover.
Eu me lembro do Faustão, especificamente por uma frase que ele dizia: Um dia toda a plateia vai estar no palco e ninguém vai estar na plateia, pois todo mundo quer ser famoso. Ora, será que ele estava prevendo a ascensão dos influenciadores digitais?
Obviamente ele não era tão digno de nota em sua capacidade cognitiva, então, acho que só o que ele queria dizer é: todo mundo quer ser famoso porque vê na TV esse "glamour" e acha isso bom. Acontece que as mídias sociais vieram para mostrar que a TV não importa mais tanto assim. E famosos aos milhares aparecem todos os dias. Tem muito famoso quem, mas também tem muita gente que não quer aparecer.
Celebridades de internet ultra-nichadas. Quem nunca se deparou com o cartaz de um evento anunciando que Fulano, Ciclano e Beltrano vão estar lá e se perguntou quem eram? Hoje as celebridades são tão ultra-nichadas que, do nada, aparece um amigo hipster do seu lado, dando gritinhos de alegria porque Zé Fulano está no evento. E você achava que conhecia a bolha do seu amigo hipster, mas, de repente, se vê boiando sobre quem seria Zé Fulano.
E por que saber quem é Zé Fulano é tão importante assim? - acabo me perguntando, pois justo eu, tenho ojeriza à ideia de celebridade, salvadores, endeusamento e idolatria. Só faz sentido saber quem é esta celebridade se você quer participar da bolha em questão.
Ah... as bolhas. E o que são bolhas? Esses grupinhos que antigamente chamavam de tribos e só se identificava na adolescência. Mas agora que uma boa parte do mundo se esqueceu de crescer, a ideia adolescente de tribos se transformou em bolhas. Grupinhos que se identificam por um jeito de vestir, de falar, de se comportar, aparência similar, ídolos similares, ideias muito mais do mesmo similar.
Comportamento de bolha, então, se torna tudo aquilo que essas pessoas fazem para se manter na bolha. E, acredite, são as coisas mais simples, como os canais de YouTube que seguem, e as coisas mais bizarras, como assassinar um cachorro e desenhar uma baleia na pele com estilete.
Não são pessoas livres, pois estão na bolha e se a estourarem, serão afastadas com indiferença, bloqueio de perfil e até mesmo cancelamento online. O medo de não pertencer é constante e faz essas pessoas agirem como ratos em laboratório, hamsteres correndo em rodinhas até aceitarem que a bolha do Prozac é bem normal e bem-vinda.
A ideia toda de identidade aprisiona estes seres, pois se forem excluídos da bolha, quem serão? O que farão de seu cabelo, o que vestirão? Que livros vão ler, que séries assistir? Com quem vão conversar sobre o mais novo episódio de Master Cheff, ou comentar sobre a mais nova tendência na cerveja artesanal?
Quando você olha para os lados e vê apenas pessoas iguais a você, meu conselho é fuja. Fuja rápido e para longe. Sem olhar para trás. Porque sua vida vai ser só triste e monótona. Sua ilusão de pertencer vai te levar ao vazio criado pela identidade falsa. Você será apenas um falsário de si próprio.
A liberdade não é concedida por ninguém, é tomada à força.
É uma ideia da qual as mentes vivazes absorvem a essência repudiando rótulos, bolhas, identidades, similares, unanimidades. Toda unanimidade é burra, já dizia alguém muito importante que infelizmente esqueci quem é.
Só tem liberdade quem tem coragem. Coragem de furar a bolha, de questionar a identidade, de abandonar seus rótulos e deixar de esperar likes e comentários nas mídias sociais para se sentir influenciador. Não vou usar o clichê de "ser quem você é", porque a maioria das pessoas infelizmente não sabe quem é, nem o que quer. Só sabe do que gosta e do que não gosta e isso não define ninguém.
Gostar e não gostar é a receita para a eterna insatisfação e sofrimento. Se você apenas aceita o que tem para hoje, independente de gosto, se adapta e se move naquilo, buscando o que há de melhor, não no outro, mas em si mesmo com aquela situação, você domina as circunstâncias que causam o sofrimento. E aprende a ser livre.
Liberdade é ser ninguém na fila do pão e amar isso.
terça-feira, 28 de maio de 2024
Sobre o gozar e a dificuldade de se adaptar ao envelhecimento
Sabe qual é o pior tipo de velho? É aquele que quando era novo tirava sarro dos mais velhos. Porque ele cresceu achando a velhice ruim. Cresceu achando que seria eternamente jovem e nunca mudaria.
Mas, fato da vida é que ninguém neste mundo está ficando mais novo. E o adolescente que hoje tira sarro dos idosos, um dia será idoso também. A menos que morra, aí, pelo menos, vai ser um velho ranzinza a menos no mundo.
O passar do tempo é de uma inevitabilidade marcante. Mas então por que nos apegamos à uma imagem tão breve quanto é a da juventude? Será que o ser humano é tão ignóbil assim a ponto de tentar parar o tempo?
Tempo é como água, você pode tentar segurar nas mãos, mas não vai conseguir. Vai fenecer no processo. E quanto mais tentar, quanto mais se esforçar, pior vai ser seu fenecimento. Será um velho do pior tipo. Aquele que range os dentes porque os joelhos rangem. Que acha que é o único a sentir dores articulares e o peso da idade. Que anseia por um implante capilar, um novo tratamento antirrugas, um modo de deixar a próstata enxuta, hormônios para não perder testosterona, para superar a menopausa.
O decaimento do corpo é sutil, mas nem sempre suave. É um encontrar-se branco onde era preto. Enrugado onde era liso. Frágil onde era forte. O broxável no imbroxável.
E o gozo que antes era constante, saudável, jorrava e espirrava, agora é raro. E se não for é apenas falso. Pílula azul.
O pior velho é aquele que queria, mas não goza.
Porque aprendeu o gozar apenas no predomínio fálico e não transferiu o gozar para a vida inquietante e mágica. Porque em vez de apreciar, conviver, amar e se deslumbrar com o novo, dia após dia, reclamou, odiou o mais velhos e quando envelheceu, odiou por inveja os mais novos. Perdeu a chance de se surpreender com o belo no simples, com a nobreza na atitude serena e compassiva do aceitar que o tempo passa.
E que o gozar muda de objeto. Se o objeto óbvio do gozo jovem era o sexo. Na velhice, o gozo é atitude, é a sabedoria, a nitidez que a experiência acrescenta sobre a vida. O simples entender que a ansiedade de estar sempre certo e querer resultados rápidos morre muito rápido.
Na medida em que o gozo muda de objeto, entendemos que o prazer da vida é o simples viver. Encantar-se pela surpresa diária de se ser quem é, sem esperar ser o mesmo. Que estar sempre certo é um grande erro. E que resultados rápidos tiram o prazer da jornada do aprender.
E que ninguém nem liga para você tanto quanto você gostaria. Você acha que todos te olham e te vigiam. Que comentam sobre você e te acham incrível ou detestável. E mostram comentários do Instagram para provar que sim, as pessoas se importam. Bem, a realidade é que se você excluir seu perfil, ninguém vai vir na sua porta perguntar o motivo.
Ninguém se importa contigo por um tempo maior que um rápido clique. E se você acha isso cruel é porque nunca foi livre de verdade. Porque liberdade é agir como se ninguém se importasse. Ser o que se é, sem prestar contas, nem criar ou ter expectativas.
Liberdade é gozar ao infinito, a vida inquietante, mágica e impermanente.
Frequentadores de academia: personagens ou gente real?
sábado, 25 de maio de 2024
A moda de mendigar na internet
Estava lendo um artigo sobre psicologia humana e ao final, na sessão de comentários, me deparo com o quê? Um comentário mendicante:
Além do despropósito de o comentário estar em um artigo que falava sobre vingança, ou seja, nem mesmo entrava no assunto assistencialismo ou qualquer coisa parecida, a mensagem em si me chamou atenção pela absoluta dificuldade de a pessoa que escreveu nem mesmo conseguir se expressar propriamente em uma frase razoavelmente construída.
Neste, chama a atenção que a pessoa que escreveu, fez questão de errar também o nome, ou seja, será uma estratégia de "fazer-se de pobre miserável"?
domingo, 12 de maio de 2024
Bizarrices do desastre no Rio Grande do Sul
Depois de acompanhar muitos desastres e analisar a atuação dos órgãos de resposta e principalmente os de comunicação, certas coisas passam a ser tão repetitivas que ficam irritantes. E agora, com esse grande desastre no Rio Grande do Sul, com as chuvas que causaram enchentes, enxurradas, inundações e deslizamentos, às vezes dá vontade de distribuir marretadas de conhecimento, para cessar a ignorância alheia.
Vou listar:
1. Sempre tem oportunistas no desastre
Políticos, influenciadores digitais, empresas privadas, até mesmo acadêmicos oportunistas, veja bem! Nunca se interessaram por defesa civil e de repente são solidários e começam a falar em prevenção, reproduzir uma palavra aqui, outra lá de defesa civil e com toda a cara de pau do mundo, posar de herói.
O principal objetivo dos oportunistas é posar de herói, pois de acordo com o manual do marketing, o mito do herói ainda está em alta. Se emocionam, disponibilizam seu pix para receber doações, enchem um caminhão com doações e uma equipe bem preparada de vídeo e fazem aquela cena para se promover no sofrimento alheio.
Vide: Pablo Marçal, o próprio governador do RS, aquela prefeita do RS fazendo vídeos na chuva, Esperidião Amin, Astronauta Pontes e Sérgio Moro naquela PL ridícula que mostra que nenhum deles conhece a legislação já existente. E muitos outros fulanos que fizeram posts e stories. A incompetência no desastre aparece na ação destes oportunistas.
2. Toneladas de doações inúteis
Um grande erro é doar qualquer coisa, porque "eles não têm nada". Aí chega calçado sem par, sem sola, sem cadarço, velho, fedido e sujo. Roupa de cama com sarna, colchão mofado, roupa velha, rasgada, suja. Comida vencida, vide Coca Cola, Tyrol. Comida inútil: Danone (como vai distribuir um caminhão de iogurte, que precisa de refrigeração em uma área que mal tem energia elétrica para o básico?). Essas empresas só doam para abater do imposto de renda, por isso enviam qualquer porcaria.
Doação não é descarte! Mas na hora de posar de herói, a foto não registra isso.
3. Acadêmicos com propostas mirabolantes e "inovadoras"
Ah, o ego acadêmico é algo a ser estudado. Uma certa professora da UFSC, pesquisadora de governança, nunca pesquisou desastres na vida, aí, de repente apresentou a governança como a solução de todos os problemas da Defesa Civil. Um pouquinho de realidade nesta mente esquizofrênica, né?
Nesta hora, os agentes de Defesa Civil levantam aquela sobrancelha e só lamentam, porque a pessoa ainda insiste que seu modelo é universal. Nesta onda, vi muito projeto de banheiro seco ganhar premiozinhos de sustentabilidade, porque implantam na comunidade X e olha só, funciona? Só que funciona por alguns meses, até a comunidade sacar que terá de fazer ela própria o manejo da merda toda. Aí, abandonam o banheiro seco.
Foi sustentável? Não. Foi útil? Não. Virou lixo muito cedo? Sim. Assim como muitos projetos de acadêmicos iludidos e esquizofrênicos.
4. Vou pegar um bote e ir lá salvar as pessoas
Quando precisa, você tem que ajudar. Mas se você não sabe o que fazer, não faça nada. Esta é uma regra básica de primeiros socorros. Primeiro você cuida de si, depois cuida do outro. É a fala da comissária de bordo no avião: primeiro coloque a máscara em si, depois no outro. Porque se você não cuidar de si, vai se expôr ao risco e vai virar mais um precisando de ajuda.
Aí, aqueles fulanos comentando nos posts: "cadê os empresários que têm helicópteros para resgatar estas pessoas?" Tipo... oi? Desde quando um piloto comercial virou resgatista? Ele não tem treinamento, nem equipamento, vai só se expôr ao risco, arriscar a vida dos que precisam de ajuda e pode ainda atrapalhar as equipes verdadeiras de resgate.
VIDE: Luciano Hang e vários outros que não me dei ao trabalho de ver.
5. A cobertura da imprensa explorando a emoção
Eu tenho uma palavra para isso: lamentável. William Bonner de camiseta preta à lá Zielenski, entrevistando o governador gaúcho, Eduardo, com camiseta branca, à lá Zielenski, falando baboseiras sem fim, como se estivessem em campanha política. Anos de incompetência e descaso com a defesa civil não é o assunto porque isso é falta de empatia com a dor do momento. Foi o que o governador respondeu ao André Trigueiro, um jornalista muito melhor que Bonner, ao ser perguntado sobre as políticas de prevenção.
Falta de empatia, caro governador, é sua incompetência em estruturar a defesa civil. Falta de empatia é botar a culpa nas chuvas, como todo incompetente se vitimizando e jogando a responsabilidade para um fator externo. Falta de empatia é sua cara de pau de posar de herói falando besteiras sobre meio ambiente e zero entendimento de defesa civil.
E Fantástico, que patético aquele texto narrando o desastre, "a água como vilão da história". Ora, francamente, vão estudar desastres!
São tantas as bizarrices do desastre no RS que nem quero continuar daqui. Este assunto me deprime.
sábado, 11 de maio de 2024
Cada um tem o umbigo que merece
Tem uma coisa no ser humano que se você observar, vai começar a perceber e vai achar patético.
Ah, sim, os seres humanos são muito patéticos.
Porque eles se acham o umbigo do mundo. Sempre pensam que todos estão olhando para ele, sabendo o que eles sabem, agindo como se soubessem quem ele é e o que faz, como se fossem a pessoa mais importante do universo.
Comecei a notar isso em um retiro de silêncio. Eu observava as pessoas, mas não no grau de interesse de saber o que estavam fazendo, mas com interesse em conhecer quem eram pelos gestos, pelo que fazem quando não podem falar e quando ninguém está olhando.
Só que quando começaram a falar no final do retiro, percebi que várias pessoas achavam que estavam sendo observadas o tempo todo. Que os outros sabiam o que elas estavam fazendo. A princípio, achei aquilo curioso. Eu me sentia muito à vontade, não via olhares sobre mim. Depois, fiquei preocupada, será que observam mesmo?
Então, percebi que a maioria não está nem ligando para o que os outros fazem ou como se parecem, mas acham que estão sendo observadas.
E em minha mente criei a teoria do umbiguismo. Obviamente deve haver estudos psicológicos de comportamento neste sentido. Mas eu apenas guardei a teoria para mim, não pesquisei sobre isso em profundidade. Sei que o processo narcísico é importante para o crescimento, mas nunca tinha pensado no narcisista em cada um de nós mantém na vida adulta em graus variados.
E então, certo dia ouvindo a palestra de um lama, ele narrou sobre um outro lama que apesar de seu enorme conhecimento e anos de monastério, quando o Dalai Lama visitava o mosteiro, mesmo sendo amigo pessoal dele e convidado a ficar ao seu lado, no alto, onde os palestrantes ficam, ele se recusava. Ficava lá fora, junto com os leigos, longe dos holofotes.
Não era um ato de esnobar a hierarquia, o poder, nem mesmo era um ato de humildade. Ao ser perguntado porque não ia para o lado do Dalai Lama, o outro lama respondeu o seguinte: eu conheço meus defeitos. Sei que se estiver lá, ao lado de importantes figuras, vou me preocupar com que as pessoas pensam de mim ali. E enquanto não domar essa vaidade, não posso sucumbir a ela.
A maioria dos humanos não tem esse nível de esclarecimento e autoconsciência. São vaidosas e quando se dão conta disso, ficam ainda mais vaidosas, entram numa onda de auto-empoderamento baseado apenas em imagem.
Isso não seria problema se não toldasse os olhos das pessoas para o que verdadeiramente importa. O umbiguismo julga: isso se parece comigo, gosto; aquilo não se parece, não gosto.
Criamos bolhas e permanecemos dentro delas, com os olhos fechados, dentro de nossas ilusões. Alguns vão dizer que é Matrix, mas Matrix é apenas arranhar a superfície. A cobertura de Nutella da realidade. Porque dentro da Matrix tem um outro sistema umbiguista, não é um sistema liberto de vaidades.
O libertar-se de vaidades não é aquilo que muitos afirmam: "Sou assim, não me importo com o que os outros pensam". Porque quando a pessoa afirma "Sou assim", ela já está mostrando sua vaidade. E o não umbiguismo seria: Não sou nada.
Ontem, discuti com uma cientista com a mente fechada. Tentou me ofender, dizendo que meu conhecimento não era válido, que eu não havia entendido um determinado conceito, porque discordei de sua ideia sobre os limites daquele conceito. Disse a ela que havia os limite do conceito, por isso ele não era aplicado universalmente como ela imaginava.
Ela não quis nem refletir sobre isso. Do alto de sua arrogância, disse que seu campo de pesquisa resolveria todos os problemas da minha pesquisa. Só que ela nem sabia o que eu pesquisava. Imaginou, se iludiu, mente fechada, não curiosa, cheia de julgamentos e achismos, não quis nem saber.
Em certo momento, ela achou que encerraria a conversa dizendo que eu não deveria estar em tal grupo, pois não entenderia o que discutiriam lá. Eu, que nunca tive a intenção de participar de tal grupo, disse simplesmente que ela tivesse respeito pelo campo de pesquisa que estava adentrando e que não era área dela. Que mantivesse a mente aberta para perceber os limites de sua própria área, ao tentar a conexão com um campo que não dominava.
E disse que havia observado sua comunicação desde o princípio, desrespeitosa, cheia de achismos e julgamentos e que não era esta a postura que eu esperava de um par científico. A ciência não tem espaço para achismos.
Com certeza, não tenho nem a intenção de mudar a ideia dela sobre nada. Não tenho essa ilusão. Quer ampliar seu horizonte, venha com a mente aberta. Não quer, fique aí, nas suas ilusões e não atrapalhe.
Ninguém muda ninguém, ninguém observa ninguém. A maioria das pessoas não dá a mínima para as outras, mesmo que pensem estar sendo observadas por serem muito importantes.
E todo mundo tem o umbigo que merece.
quarta-feira, 1 de maio de 2024
A ilusão de que trabalho enriquece
Estava analisando uma entrevista em que, dado momento, o entrevistado, um senhor distinto, militar, conservador, com linguajar simples, porém com arroubos de sofisticação, se refere a um assassino que matou crianças em uma creche como "aquele marginal".
Então, passado o trabalho de análise, "aquele marginal" não saiu da minha cabeça. O sujeito, branco, militar, cargo importante, influente politicamente e em suas bolhas sociais já tinha se referido anteriormente à questão indígena com um discreto desprezo. E "aquele marginal" confirmou que seu verniz de pessoa importante era só a fachada do que representa uma boa parcela do povo, brasileiro ou não:
garanto meus privilégios e os da minha bolha social, o resto é "aquele marginal".
Indígena não compra imóveis, só pede suas terras de volta, então são "aquele marginal". Favelados, descendentes de escravizados não compram imóveis, então são "aquele marginal".
Mas o mais interessante é que "aquele marginal", o assassino de crianças na creche era branco, vindo de uma família estruturada, pessoa "de bem".
Talvez nazista, talvez psicótico, com acesso pela internet a bolhas bem específicas de muito ódio. Talvez o assassino quisesse cobrar a vida de crianças porque ele próprio não tinha mais o direito a uma creche com hora do soninho, em vez do trabalho assalariado que, segundo prometeram, traria a riqueza e o poder.
Enfim, "aquele marginal" é qualquer pessoa "de bem" que, metida em uma bolha, alucina que o mundo está contra ele. Pode ser você, pode ser eu, pode ser qualquer fulano neste mundo.
Tem um estudo baseado no Experimento de Aprisionamento de Stanford, que mostra que não é preciso muito estímulo ou muita realidade para uma pessoa "de bem" virar um maníaco assassino. Basta se perder em sua bolha.
E como seres humanos, sempre fomos bolhosos, não é prerrogativa da sociedade atual. Então, talvez devêssemos ser menos humanos. Transitar entre bolhas, estourar bolhas, perceber como elas se movem. Mas, não se faça superior por isso, porque você vai perder sua humanidade: deixará de pertencer, de ser bairrista, de usar a mesma linguagem e mesmos argumentos dos outros. Vai ser o diferentão.
Mas perdendo sua humanidade, você ganha toda a natureza que está fora da bolha. É mais ampla, é mais sábia, é mais livre. Poucos aguentam, se você não tem coragem, nem tente.
Ah, mas é solitário... Sim, talvez seja. Mas, você às vezes esbarra em outras pessoas que não são mais cabeça de bolha e aí, começa a perceber que não é o diferentão, a bolachinha dourada do pacote especial do universo. Você é é mais um na multidão. E isso é o que te dá a liberdade de ser o que quiser ser.
Manezinho, povo mesquinho
Minha rima é válida, porque é real. Basta ver um velho morrer no Ribeirão da Ilha pra já notar a mesquinheza do povo manezinho, esse que nasce na ilha de Santa Catarina, Florianópolis, para os menos chegados.
O defunto mal esfriou, às vezes o passante nem morreu, e lá vão os parentes procurar saber o que vão ter de herança. Nunca vi povo mais mesquinho nas minhas andanças pelo Brasil. Enriquecem à custa de herança, se desentendem por herança, matam por herança.
Trabalhar que é bom, aí é difícil, porque manezinho bom é manezinho preguiçoso. Reclama de tudo. A tainha alheia é sempre maior. Os turistas infestam nossas praias, mas vamos aumentar o valor dos aluguéis pra explorar o pobre coitado de férias. 200 reais um prato de peixe numa dessas vias gastronômicas. Vamos vender os terrenos invadidos e herdados para construir condomínio e ah, plano diretor, preservar a mata pra quê?
É, se fosse pelos manezinhos, a ilha de Floripa já teria virado a Ilha de Páscoa, inerte, sem vida, sem árvores, só com ilhéus "típicos" pra cobrar caro numa tainha xôxa e num hotel de besta. O atendimento ao cliente tão ruim que o cliente quase pede desculpa por comprar.
Esse é o manezinho.
Ah, mas você só foca na negatividade, deve ter coisa boa. Coisa boa só quando o manezinho vai embora da ilha. Porque daí, pode ser que ele tenha um choque cultural e comece a enxergar sua pequeneza diante do mundo e ser menos mesquinho.
Pois é, só que isso não acontece. Não com o manezinho. Olha bem, Floripa é um paraíso. Minha tainha vai ser sempre melhor que qualquer peixe metido a besta.
Então, é isso, não tem coisa boa. Nem manezinho morto é manezinho bom, porque os parentes, os mesmos que querem só a herança do defunto, só falam mal da criatura.
Eles dão um jeito de se autodestruírem.











